Amor invisível

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

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Amanda sentia pelo doutor um amor invisível, contentando-se em vê-lo todos os dias. Tinha por ele um amor à distância, intensamente forte que a unia a ele, como se pudesse tocá-lo, sem nunca ter demonstrado ou concretizado qualquer ato. Amava este sentimento e sentia-se confortável com seu segredo. Secretária do consultório, há anos, desdobrava-se para que tudo estivesse em ordem, evitando aborrecimentos ao doutor. Abria e fechava o local, organizava as consultas, marcava os retornos, controlava os pagamentos e guias de convênios, resolvia quase todas as dúvidas, o que favorecia em muito o trabalho dele.
 
Tinha uma aparência diáfana, magra, clara, alta deslizava pelos ambientes como uma sílfide. O timbre de sua voz era bem feminino, mediano e falava pausadamente. Cabelos curtos, rosto marcado pelo tempo, sorriso meigo. Era muito bom conversar com ela sobre amenidades de uma sala de espera. Alegre e atenciosa não transparecia o sofrimento causado pela morte de um filho, já moço, vitimado pela insanidade de outro jovem que queria seu carro. A vida lá fora a esperava e ela a enfrentou, sozinha, apenas acompanhada deste devaneio impossível, inalcançável e utópico. Romântica vivia seu sonho, sentindo –se plena com sua idealização, dedicando todo seu afeto e bem querer ao amado.
 
Com trinta anos de dedicação, Amanda fazia parte da história do doutor e de sua família, muito benquista e respeitada. Quando se despediu daquele lugar, onde moravam suas ilusões e sentimentos, pensou como o poeta português Luís de Camões “que se não fora tão curta a vida para tão longo amor”, serviria mais trinta anos àquele que foi a razão do seu viver. Recebeu homenagens de gratidão e inúmeros presentes, entre eles um porta–retratos de madrepérola que repousa, ao lado de sua cama, com a foto dele sorrindo, o que a faz ter lindos sonhos.
 
                             

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