Olho para ele e arrepio

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

359821
Minha infância, a exemplo de muitas outras pessoas,  foi cenário e palco de infinitos momentos e acontecimentos felizes. Tenho na lembrança, que na minha infância teve o leiteiro que entregava o leite que nem pasteurizado era, em vidros limpinhos organizados num caixote de madeira com repartições.
 
Plásticos não eram muito populares, ainda. Teve verdureiro que oferecia as verduras que ele mesmo produzia e que as mães da gente compravam direto da carroça, que vinha duas vezes por semana no bairro. Carroças puxadas a cavalo, que faziam uma sujeirada danada nas ruas sem calçamento. Verdade que tinha frutas de monte, mas apenas aquelas que cresciam no quintal das casas,  chácaras, uma fazenda ou outra que tínhamos oportunidade de visitar.
 
Tinha jabuticaba, goiaba, cana, manga, mamão, banana,  pitanga, jatobá, banana de macaco, marmelo e até gabiroba, a cuja referência os adultos morriam de rir, piada que só fomos entender muito tempo depois. Melancia era coisa rara; melão, só fomos conhecer na adolescência; maçã e pera eram oferecidas quando a gente ficava doente, tratamento tira e queda, regado a água mineral Prata, coisa fina. Poucas lembranças são ruins, muito poucas, mas em sendo ruins, são de tirar o chapéu de ruindade. Esse remédio aí, por exemplo.
 
Olho para ele e arrepio. Gosto e cheiro,  tantas e muitas décadas depois da última colherada, ainda são familiares. Pesadelo horrível, lembrar da fila que mamãe nos obrigava a fazer, para tomar a colher da emulsão, que ela mandava vir de Uberlândia, preparada por farmacêutico casado com familiar. Minha infância, como a de muitas outras e muitos outros, só não foi perfeita por causa desse remédio. Temos ótima dentição, mas que o preço foi alto, isso foi. 
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras