Junho de 1983

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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Haveria festa junina na casa de amigos com a presença de pessoas muito bem humoradas, outras com algum desejo de diversão e outras desprovidas de  qualquer senso de humor, unidas todas em busca da alegria que esse tipo de reunião promove, pelo menos para nós, brasileiros com alguma tradição.  Procura aqui, procura ali no baú de roupas antigas, descobri que nenhuma saia das guardadas fechava na cintura e nenhuma das blusas de babados  abotoava na frente  do meu peito. A gravidez havia alterado minhas medidas. Por algum motivo Wanira e eu nos falamos ao telefone. Então ela sugeriu que fôssemos vestidas de forma diferente. (Wanira era mestre no jogo de cintura e criatividade.) Ajudou-me a descobrir par de calças lilás, paletó  xadrez, gravata listrada no depósito da loja de confecções de amigo em comum. O critério da escolha foi “nada a ver com nada”. O cinto, que segurava as calças, era barbante. A camisa azul surrupiei do guarda roupas do marido. A montagem da minha caracterização aconteceu detalhe sobre detalhe, como na clássica cena da transformação da Cinderela, mas às avessas. Cinderela ficou linda e eu, bem, irreconhecível. Ela lembrou  da banda preta na manga do paletó, sinal de luto.  Peruca posta, bigode e  cavanhaque desenhamos a lápis. O lenço em volta do queixo simulava a dor de dentes responsável pelo  inchaço as bochechas, que o incômodo algodão dentro da boca sugeria. Chapéu na mão. Flor na lapela. E a botina imensa nos pés, também surrupiada do armário conjugal.  Ai Wanira chegou. Vinha de verde reluzente, luvas pretas com anel ofuscante, pulseira verde, sapato azul de salto enorme, brincos amarelos, piteira, meia arrastão, estola de peles branca. Brasileiríssima. Estava esplendorosa, alegre, ria alto, de contagiar quem nos rodeava. (Wanira era a alegria personificada.) Nossas filhas ficaram envergonhadas, menos Mayra, caçula dela, que se divertia conosco e, acompanhando-nos na entrada triunfal daquela festa, até aparece em segundo plano na foto.  Foram momentos assim que definiram nossa amizade. Momentos de cumplicidade, sintonia, respeito, bom humor, carinho, delicadeza, liberdade, confiança, ausência de ciúme, desejo de crescimento mútuo, nenhuma competição, preferências em comum postas em prática. Muita música.  Pessoa única, ela foi estrela, nunca foi satélite. No espetáculo da vida teve seu público e seu palco, que nunca se confundiram com  público e palco de ninguém. Aí, aconteceu:  o Sol Wanira se apagou.  A exemplo de sóis de Primeira Grandeza,  seu brilho permanece. 
 
 

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