tango doméstico

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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As ameaças amiúdam, acabarão por se concretizar. Você me deixará em breve. Pressinto isso, o coração tem feito esforço enorme para não se diluir e não se derramar pelos olhos.
 
Às vezes perco o autocontrole, sinto que é maldade demais. Depois, a serenidade volta, e eu compreendo e aceito, reconheço que você não tem culpa. A responsabilidade, se existe, é do atavismo de fêmea que você carrega em cada pêlo e em cada poro.
 
Não raro, esqueço-me disso, queima-me a ingratidão que julgo sua, sobretudo quando passeio, desligado, pelas alamedas do passado.
 
A miséria física não escondia sua beleza juvenil, mas ela não se fazia barreira, não impedia que todos a enxotassem, que lhe recusassem a migalha mendigada. Talvez os homens – jurados, juízes e carrascos do próximo – estivessem a lhe cobrar algum passado erro, algum gesto instintivo.
 
Condoí-me em nossos primeiros encontros, mas não lhe dirigi mais que um olhar de pena. Depois, apenas lhe saciei o instinto mais primário. O gesto aquietou-me a consciência a que chegava o argumento sólido de que não se podia quebrar minha tranqüilidade de ermitão, a custo conquistada. Os descaminhos tinham de ser permanentemente evitados.
 
No entanto, quando você virou Madalena, alvo de pedradas de todos os crentes, vesti meu desejo de bondade e estendi-lhe a mão, recolhi você. E dividimos o abrigo e o pão e o afeto pequeno, e você, talvez pela vez primeira, conquistou respeito, adquiriu prestígio, acabou até estampada em capa de revista.
 
Agora, sei, você me deixará.
 
Muitos sinais, muitos indícios buscam preparar-me o espírito. Em vão. Já me dói, e em demasia, o desenlace inevitável.
 
A voz embargada se nega a sair, e minhas palavras pouco diriam a seus ouvidos caninos. Mas seus olhos sabem do meu carinho e da minha aceitação de sua partida, da vida. 
 
E não há magnanimidade no gesto. É que sei que o espólio que me coube foi apenas um cesto repleto de perdas.

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