Setembro

Por: Isabel Fogaça

360841
Há três semanas que decidi plantar ipês com meus alunos da APAE. Levei os vasos e as sementes; li as instruções, e cada um afundou o grão tomado por uma casca branca fina na terra. Sorriam, empurravam, molhavam, olhavam o vaso mirando na direção dos raios solares. Os alunos que não podiam mexer os braços eram ajudados pelos seus colegas que podiam; os colegas que não podiam falar sobre a semente, esboçavam olhares cheios de brilho toda vez que eu mencionava o tamanho, a cor, e o volume de um ipê no mês de setembro; os alunos que não escutavam eram os mais cuidadosos e atentos aos meus gestos: fiquei na ponta do pé e ergui os  braços bem alto, queria ficar do tamanho de um ipê, eles riram.
 
Entramos na sala de aula, e os meninos ficaram encarregados de desenhar como imaginam a semente daqui alguns anos. Nasceu um ipê roxo, um amarelo, e até um girassol. Em seguida, os alunos tiveram que nomear suas plantinhas: Roxa, Felicidade, Gira, Infinita, foram alguns dos nomes escolhidos. Depois deste episódio, o aluno mais tímido, de  quem até então eu não conhecia a maciez da voz, me encurralou entre a parede e a porta, e perguntou:
 
“Isabel, você pode trazer uma semente para eu plantar no quintal da minha casa?”
 
“Claro, coração.” Foi o que, entusiasmada, respondi.
 
Todos os dias que pego a estrada pela tarde, insisto em me apaixonar pelos ipês que encontro no caminho. Tenho vontade de eternizá-los em aquarela diante do amor brutal em apenas contemplá-los, mas deixo esse exercício ao mérito dos meus alunos, que o exercem com maestria.
 
Na última semana, dei um grito ao olhar os vasinhos no entre as aulas, e perceber que um ipê fez um pouco de força e se tornou um miúdo verde fora da terra. Chamei todos os alunos para fora da sala, celebramos como se estivéssemos em uma festa indígena no nascimento de uma criança gorda e sadia.
 
Contudo, fiquei sabendo que no próximo ano alguns dos meus alunos (ou possivelmente apenas um deles) serão encaminhados para a escola regular. Tenho medo de que o sistema engula a sua inocência; que na escola ensinem que apenas através do mercado de trabalho “Ele será alguém”. Meus alunos são grandes pintores, poetas, literários, gostam de Manoel de Barros, vocês precisam ver! Esses dias quiseram pintar com guache um poema que levei no envelope: saiu um rio tão rico em peixe que mais parecia um cenário amazônico, coisa de artista, coisa que não se aprende na escola. Lá onde nos encontramos, todos os dias cantamos uma música, batemos tambores, plantamos árvores que ficam bonitas em giz ou aquarela.
 
Será este o destino do meu broto de Ipê? A denominada “disciplina” cortará as flores dos meninos; obrigarão que aprendam formula de bhaskara; e o que é um ditongo, e um tritongo. Não que essas coisas sejam desimportantes, mas eles não ficam bem presos às máquinas, eles são bonitos mexendo na terra, olhando seus vasos entre os raios de sol, nasceram para serem livres. Vocês precisam ver os sorrisos deles! É coisa grande demais para encarcerar entre carteiras, entre apostilas, e livros de fórmulas. 
 
Pode florir, Ipê. Por sorte, por mais que seja duro, o tempo esteja seco ou monótono. Todo ano chega setembro.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras