Julgar e condenar

Por: Sônia Machiavelli

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Vira e mexe  estamos julgando as pessoas. Suas roupas, seu corte de cabelo, sua entonação de voz, seus tropeços na língua, sua ignorância sobre assuntos que estão na ordem do dia e deveriam ser de seu conhecimento. Essas são pequenas coisas. Há outras, bem maiores. Julgamos preguiçoso o cara que perdeu o emprego e desistiu de procurar outro depois de muitas andanças frustradas;   indolente o  funcionário que se demora excessivamente no seu horário de almoço; leviana a moça de linguagem e gestos inconvenientes;  irresponsável  o jovem que no meio do curso universitário, custeado a duras penas pelos  pais,  decide abandoná-lo. Olhamos e julgamos,  tolamente esquecidos de que nem sempre o que vemos é o que parece. 
 
De minha parte, tenho me esforçado muito para me livrar desse hábito nefasto, confesso consciente da minha precária condição humana.  “Ah, juro que vou parar de julgar”, digo a mim  quando me pego reincidente. Mas de repente lá estou, julgando outra vez os outros e incorrendo em erros ao não levar em conta a situação peculiar de cada um. Porque  pessoas possuem características e tendências, e  vivem em circunstâncias singulares que são desconhecidas às vezes quase por completo dos que as cercam. Vemos  apenas uma nesga do outro; e nos achamos  no direito de criticá-lo como se mantivéssemos um olhar onisciente sobre o todo. Quanta arrogância, Deus do céu! Quanto de ridículo há nisso!
 
Sobre o assunto, li dia desses  longo artigo de psicólogo pouco conhecido mas de inquietante profundidade, que me deixou impressionada. Entre outras coisas diz ele que quando as pessoas não se encaixam nas nossas noções preconcebidas, e se não conseguimos explicar comportamentos segundo nossos padrões, entramos com o tal julgamento. 
 
As palavras dele me levaram a resgatar fatos que presenciei quando comecei minha carreira de professora concursada em São Paulo, na Vila Alpina, reduto de imigrantes eslavos. Uma enfermeira tinha duas filhas que estudavam na escola. A mãe era bonita, tinha a pele muito clara, olhos azuis. Seu marido era moreno, de cabelos castanhos e olhos escuros. As irmãs, com três anos de diferença na idade, diferiam muito no físico: a mais velha, loira ; a caçula, negra.  E isso incomodava alguns professores veteranos. Novata naquele espaço, comecei a ouvir  um zumzumzum onde versões variadas surgiam. Na maioria delas brotavam risinhos e zombarias que visavam ao marido e imputavam infidelidade à sua mulher. Essa situação de maldade gratuita durou até o dia em que houve festa para as famílias na escola e a enfermeira levou a sogra. Era negra a avó paterna das crianças.  
 
A outra história é menos ácida, e me foi relembrada num vídeo do Facebook. Lugar  de tantos julgamentos  precipitados e equívocos lamentáveis, eis que este espaço virtual  pode ensejar história que convida à isenção e à condenação da pressa quando estamos diante de uma cena que nos perturba de alguma maneira. Os personagens são uma mãe e sua pequena filha, que tem entre as mãos duas maçãs. Pergunta a mãe, que se apresenta faminta:
 
_ Você me dá uma das maçãs?
 
A menina olha para mãe, olha para as maçãs. Crava os dentes em uma fruta.  Depois, em outra. A mãe, surpresa, acreditando que aquele é um gesto de profundo egoísmo da filha, pensa em várias coisas ruins a respeito do  tema (é incrível o número de fatos que nos ocorrem e associações que fazemos em sessenta segundos!). Então a menina lhe estende uma das maçãs e diz:
 
_ Fique com essa, mamãe; é a mais  doce!
 
Quando a gente tem muita certeza, e julga de forma afoita, está  no caminho errado. Porque em lugar de julgar, pode estar condenando injustamente. E isso é terrível.

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