um pedacinho de lembrança

Por: Luiz Cruz de Oliveira

363352
Estou saturado de ausências, sem vontade alguma, sequer a de estender o braço, abrir a portinhola e soltar o canário do reino que o vizinho insiste em manter aprisionado na gaiola. Resulta inútil até o esforço para desenhar nos olhos uma cachoeira, um pedaço de serra, mesmo um fio de água. 
 
Estou saturado, saturado de vazio.
 
É quando chega a Solidão, amante fiel, e me arrasta para fora do quarto, para o Sítio Santa Adolescência, que costumamos visitar à hora do lusco-fusco. Enquanto ela cerra portas e janelas da casa-sede, aquece a água no fogão à lenha, perfuma o quarto com sua presença, repito a rotina: percorro trilhas, enquanto arranco sons dolentes do violão quase centenário.
 
O luar bisbilhota por entre os galhos, apontando o caminho. De repente, seus olhos de lanterna iluminam objeto no chão, entre as folhas secas. Cuidadoso, como se colhesse pepita, recolho  aquela coisa brilhante.
 
Na sala, na claridade artificial, desfazem-se todos os mistérios: é um pedacinho de lembrança.
 
Com algodão umedecido, limpo cada pequena peça. A atenção é a de cientista, o carinho é o de mãe. Dissipo horas na vã tentativa de recompor uma peça, um parafuso, uma mola, um pedacinho de vidro. Tudo em vão.
 
Meu achado está irremediavelmente mutilado pelas pisadelas do tempo.
 
Irrecuperáveis, minha pinça apenas identifica pedaços de peças machucadas: felicidade, amor, futuro... Todas mutiladas, deformadas.
 
Deixo o resto de lembrança imprestável num  cinzeiro velho, retorno a meu cantinho de ausências.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras