Caminhos

Por: Angela Gasparetto

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Sinto que caminho feito aquele personagem alter ego de Marcel Proust em Em busca do tempo perdido, apreciando de maneira peculiar as flores das estradas, sorvendo o perfume do campo que se estende e antecedendo sonhos e saudades de lugares já vividos e outros nunca vistos.

Nas curvas destes caminhos, procuro obstinadamente os rastros de passos outros, de sentimentos tolos ou de boas surpresas advindas antes das mágoas.

E revejo meus passos curtos nos trilhos pelo meio dos terrenos baldios de volta da escola; vejo a bolsa “embornal” que batia de encontro aos joelhos infantis e sinto ainda o medo latente que me rondava na volta solitária para casa.

Nestes antigos caminhos, vinha eu com minhas botinhas pretas que rangiam de tão gastas e as meias que embora imaculadas, eram masculinas, a despeito da minha sainha toda pregueada ao vento.

E caminhando com passos hesitantes, ouvia ao longe os rádios da vizinhança desconhecida, os quais tocavam as mesmas músicas sertanejas de Tonico e Tinoco ou Tião Carreiro e Pardinho. Músicas estas que traziam um misto de melancolia e reencontro, pois sabia que minha mãe já estaria de volta, ouvindo o mesmo programa no preparo do nosso jantar, o que me trazia um consolo sem precedentes na solidão daqueles dias vazios.

E hoje também há os muitos caminhos espinhosos, os quais percorro com os pés calçados de scarpin “nude”, a camisa branca premeditadamente clássica e uma bolsa de couro, que carrego como um atestado previsível da mulher “pseudo” bem-sucedida. “Pseudo”, porque ser bem sucedido é relativo e relativa é a felicidade.

E quando viro na esquina da minha vida, ainda me deparo com aqueles outros caminhos de atmosfera silenciosa, das ruas de paralelepípedo vazias, das tardes enfadonhas de datilografia.
Caminhos cheios deste misto de rebeldia e obediência, onde a segunda sempre vencia primeira.
E antevejo os outros caminhos mais doces de noites estreladas, quando vínhamos visitar minha avó paterna e a lua era a única guardiã onipresente; lugar onde o asfalto terminava na subida de volta e onde eu quase sempre dormia carregada pelo meu pai.

Havia os caminhos de volta à fazenda, onde na escuridão das manhãs ouvíamos o mugido das vacas próximo à janela do quarto e aconchegávamos protegidos nos cobertores xadrezes novos, comprados para a ocasião.

Caminhei também para a felicidade plena do amor, onde uma noite era luz incandescente e toda a minha vida poderia muito bem terminar naquela trilha mágica. Mas nestes caminhos, também encontrei encruzilhada de dor, onde o prazer sobrepujou toda a fúria que impus para viver aquela maratona de emoções.

Durante anos também andei cega por vários caminhos obtusos, tateando refrigérios ocultos, impondo conceitos, escalando íngremes montanhas, alardeando equívocos como contundentes verdades.

E vou seguindo quebrando paradigmas, removendo destroços e tentando criar uma passarela acima dos rios que foram à forra após anos de represamento.

E ainda caminho carpindo novas estradas, enterrando fundo possíveis mágoas, plantando esperanças e limpando sequelas aparentes, mas acima tudo, regando sonhos. Sonhos para construir pontes, pontes de felicidade.
 

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