Protesto (Parte final)

Por: Carlos de Assumpção

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Um dia sob ovações e rosas de alegria
 
 Jogaram-me de repente
 
 Da prisão em que me achava
 
 Para uma prisão mais ampla
 
 Foi um cavalo de Troia
 
 A liberdade que me deram
 
Havia serpentes futuras
 
Sob o manto do entusiasmo
 
Um dia jogaram-me de repente 
 
Como bagaços de cana
 
 Como palhas de café
 
 Como coisa imprestável
 
 Que não servia mais pra nada
 
 Um dia jogaram -me de repente
 
 Nas sarjetas da rua do desamparo
 
 Sob ovações e rosas de alegria
 
 Sempre sonhara com a liberdade
 
 Mas a liberdade que me deram
 
 Foi mais ilusão que liberdade
 
 Irmão sou eu quem grita
 
 Eu tenho fortes razões
 
 Irmão sou eu quem grita
 
 Tenho mais necessidade
 
 De gritar que de respirar
 
 Mas irmão fica sabendo
 
 Piedade não é o que eu quero
 
 Piedade não me interessa
 
Os fracos pedem piedade
 
 Eu quero coisa melhor
 
 Eu não quero mais viver
 
 No porão da sociedade
 
 Não quero ser marginal
 
Quero entrar em toda parte 
 
Quero ser bem recebido
 
 Basta de humilhações
 
 Minhalma já está cansada
 
 Eu quero o sol que é de todos
 
 Quero a vida que é de todos
 
 Ou alcanço tudo o que eu quero
 
 Ou gritarei a noite inteira
 
 Como gritam os vulcões
 
 Como gritam os vendavais
 
 Como grita o mar
 
 E nem morte terá força
 
 Para me fazer calar 
 
 
 
(Poema escrito em 1956.)
 Nota do Autor
Na década de 70,o jornalista francano Geraldo Campos de Oliveira,um dos fundadores da Associação Cultural do Negro em São Paulo, participou de Congresso Mundial do Negro realizado em Roma.Nesta época o poema Protesto era a coqueluche paulistana, declamado em toda parte. O jornalista,segundo nos disse quando de volta ao Brasil, apresentou -o à apreciação do festejado poeta Aimé Cesaire,da Martinica, que o achou muito bom e importante.Anos depois Aimé Cesaire foi presidente da Martinica. Alguns ativistas e literatos me disseram que o poema foi traduzido para o inglês,alemão e francês. Eu não vi nenhuma dessas traduções. O grande geógrafo Milton Santos comparou-o ao famoso discurso de Martin Luther King Jr  I Have a Dream.  Há muitas referências ao poema Protesto;  é só pesquisar. Eu as desconheço pois há tempo vivo no interior do estado de São Paulo, fora dos eixos culturais mais significativos do País.

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