Abandono

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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Mães deviam ser proibidas de morrer. 
 
Mães, quando morrem, tornam o filho órfão. Tenham os filhos a idade que tiverem, deixa-os vulneráveis com a sensação de terem cinco anos de idade, frágeis e abandonados. Deixam no coração deles vazio imenso, lacuna tão grande, que quantidade alguma de lágrimas poderá preencher. E olha que a gente chora. 
 
Chora pela morte delas, primeiro. Imaginar que nunca mais voltam, é muito doído. Chora de raiva, ao lembrar do quanto elas foram descabidamente exigentes algumas vezes e de quanto fomos ingratos a maior parte das vezes.  
 
Chora, porque pegamos alguma roupa que ela usou recentemente e que conserva o cheiro delas. (Cada mãe tem um cheiro inconfundível.) 
 
Chora sempre que começar na televisão a novela que ela gostava de ver.
 
Chora por causa da música que ela gostava e que começou a ser cantarolada inadvertidamente por alguém da casa. Ou fora dela. 
 
Chora porque alguém veio nos visitar por causa da sua partida. 
 
Chora, porque motivos não faltam.
 
Por isso, quando a mãe da gente parte, nenhum estranho deveria tocar em nada que lhe pertenceu. Deveríamos fazer cerimônia de despedida através de seus bens pessoais, de seus objetos, suas roupas, discos, fotos, quadros, enfeites, jóias, caixinhas, porque cada peça dessas conserva, independente de sua presença física, algo de sua energia. 
 
Os filhos deveriam pedir compreensão às visitas, pedir licença, fechar as portas da casa, e começar a despedida dos objetos que compuseram seu entorno. Reverenciar cada peça. Lentamente, deixar que as memórias ligadas a ela saiam do limbo, que ganhem forma e cor. Olhar cada objeto, separando-os para lhes dar destino digno, porque tudo que pertenceu à nossa mãe é sagrado. E despedir-se de cada um deles. 
 
Recentemente três Mães que conheci partiram. Idades diferentes, situações diferentes, histórias diferentes, graus de convivência comigo diferentes, as três deixaram igual, profunda e triste laguna na vida dos filhos.  Dona Dora Mello, Wanira Salles, Zilá Pucci e Maria Carmen, que nem conheci, mas que era mãe de amiga de minha neta,  partiram. 
 
Se eu pudesse diria às filhas, para formalizarem a despedida delas. E também lhes garantir que aprendemos a viver sem elas e a conviver com a dor de suas ausências, embora a sensação de abandono e desamparo persistam.  Indefinidamente. É dor sem cura. 

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