Momento de ternura

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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“Você   precisa me ajudar”, disse o irmão dentista, daquele jeito de irmão caçula italiano que não admite recusa. “Tenho uma paciente cujo sonho é encontrar com d. Sônia Pizzo, a Patrícia. Vê se você consegue  ficar fria diante do que irei lhe contar.” Com pormenores, relatou-me a história. 
 
Luzia Luiza, paciente dele, era casada com Gerônimo.  Ambos deficientes visuais, conheceram-se  no Instituto dos Cegos de Franca. Verdadeira história de amor, apaixonaram-se, embora só tenham se visto com os olhos do coração. Na convivência com os inúmeros amigos, provaram a todos  que, de fato, “o essencial é invisível aos olhos”. Pelo menos em se tratando de amor do tipo que  elimina diferenças, estabelece novos critérios para beleza,  e que torna o outro a metade perfeita para nos acompanhar na busca da felicidade. Gerônimo sempre teve por Luzia Luiza, além do carinho imenso, o zelo que nasce no exato momento em que também brota o  amor e que se manifesta, de um para o outro, e vice-versa,   nos mínimos gestos do cotidiano. Assim, ele mimava a mulher  a ponto de entrar com ela no consultório do profissional, segurar sua mão sempre  que ela manifestava alguma insegurança e, pode acreditar, disse-me o irmão, tinha ciúme dela. Em maio deste ano o comovido encontro entre fã e ídolo,  aconteceu.
 
Patrícia deixou seus milhões de afazeres, quando soube dessa veneração da fã para se encontrar com Luzia, Gerônimo  e Andressa, a jovem alma boa que cuidava deles.  Foi emocionante. No mínimo emocionante. Luzia parecia enxergar Patrícia. Patrícia emocionada, abraçava Luzia Luiza, que lhe dizia reconhecer no som de sua voz, que há anos escutava pela rádio, o mesmo timbre da voz de sua mãe, razão pela qual ficava ainda mais emocionada ao conversar pessoalmente com ela. Luzia Luiza,  que já mostrava sinais de enfraquecimento físico naquela ocasião, tão logo depois do esperado encontro que contou para todos os amigos, ficou muito doente. Em setembro, faleceu. 
 
Gerônimo, hoje mora sozinho, com suas lembranças e a saudade de Luzia. Patrícia leva no coração a lembrança de doce saudade de grande momento de ternura, diferente daqueles da rotina de sua vida inteira. E quem presenciou o encontro, só pode ser grato ao que considera privilégio neste mundo  de frieza e desconsideração das pessoas para com o próximo. 

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