Cardápio indigesto

Por: Sônia Machiavelli

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Não deveria acontecer,  mas em muitos lugares deste Brasil de dimensões continentais  crianças vão à escola para se alimentar, pois suas famílias não dispõem de recursos com os quais nutri-las. No Estado de São Paulo, economicamente o mais desenvolvido, isso ocorre também.  Tanto nas  escolas situadas nas periferias das cidades do interior, como  nos bolsões de miséria  da metrópole, o fato vai se escancarar ao olhar menos indiferente. Ou mais compassivo.
 
Assim sendo, o fato pediria cuidado aliado a bom senso para  que se criasse  um cardápio saudável  para todas as crianças que não conseguem preencher seu cérebro com informações  quando  seus estômagos estão vazios. O  organismo infantil, sabe qualquer leigo minimamente antenado, pede  proteínas de boa qualidade, carboidratos, vegetais, frutas, ingredientes frescos. E o paladar de uma criança merece tanto respeito como o de um adulto. 
 
No mundo ideal toda escola deveria ter como chef de cozinha uma Dona Lili que habitou meu mundo de menina com direito a merenda na Escola Coronel Francisco Martins. Na cantina azulejada de branco e muito limpa, ela fazia sopa de legumes com macarrão ou de fubá com couve no inverno; galinhada no verão; bolo de fubá e canjica no período de festas juninas. De longe sentia-se o cheiro dos alimentos sendo cozidos, as moléculas de aroma soltando-se no ar, atravessando janelas e pátio, chegando às  salas onde  os alunos que não podiam levar lanche tinham o direito de degustar a comida daquela  de quem retenho até hoje a fisionomia alegre, o sorriso bondoso e o avental  alvíssimo.
 
No mundo real o prefeito da maior cidade da América Latina, João Dória,  teve a coragem de propor  como merenda uma tal “farinata”, elaborada  com ingredientes  próximos de seu vencimento(!),  o que representaria grande  economia para o Estado. Mistura de farináceos, o produto  fabricado pelo Instituto Plataforma Sinergia passou a ser defendido como “o melhor alimento do mundo para suprir carências nutricionais”. Isso, em pleno outubro, mês dedicado à criança, o que me soou como cinismo ou ironia, já nem sei. Só de ver a foto das bolotas cinzentas dentro de vidros  senti  repugnância; outros brasileiros incomodados reagiram de maneira parecida, pois   logo que as imagens foram divulgadas passaram  a chamá-las de “comida de cachorro”. Achei uma injustiça em relação às  rações para cães e gatos. 
 
Em resposta ao repúdio, inclusive de respeitados  nutricionistas,  a secretária de Direitos Humanos, Heloisa Arruda, afirmou que o alimento havia sido aprovado em concurso mundial da FAO. Jornalistas estranharam, pois este órgão ligado à ONU, e com relevantes trabalhos no combate à fome no mundo, nada havia divulgado a respeito, pelo menos nos últimos meses. Saindo a campo, logo descobriram o embuste: nem ONU, nem FAO, nem qualquer  instituição internacional ligada à alimentação haviam referendado a tal “farinata”. Indo mais a fundo, descobriu-se que o  Instituto Plataforma Sinergia usava indevidamente em seu material de divulgação logotipos do Consea (Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável), do SESI, do SENAI, DA FIESP, da ABAD (Associação Brasileira de Atacadistas e Distribuidores de Produtos Industrializados) e da Câmara Internacional do Comércio, como se estes fossem seus parceiros. 
 
Nessa mixórdia toda, o que transparece e perturba quem tenha um mínimo de consciência cidadã é o descaso em relação à infância. É o menosprezo com que é tratada pelos homens públicos  a criança oriunda de ambientes onde as faltas são grandes. Tornam-se evidentes  da parte dos que detêm poder  o falseamento da verdade, a tentativa de iludir, o descompromisso com a saúde, a  indiferença pelo bem-estar dos pequenos; e um autoritarismo que só recuou porque a rejeição  foi grande e Dória pretende se candidatar em 2018. Aparentemente  desistiu  da proposta.
 
Mas, abortada a “farinata”, outro assunto  alimentou na última semana  as páginas do noticiário brasileiro, este menu de violências de todos os tipos,  para nos encher de vergonha, agora em nível nacional: de cada grupo de 100 estudantes brasileiros que iniciam o Curso Médio na rede pública, 40 desistem no meio do caminho. 
 
Que sociedade  estamos construindo?

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