O MELHOR TEXTO DA MINHA VIDA

Por: Isabel Fogaça

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Encontrei um osso coberto de carne em processo de apodrecimento, ele estava centralizado entre o mercado municipal e o asfalto quente, as pessoas andavam apressadas e aborrecidas, desviavam enojadas, porém ninguém se dispôs a acabar com o problema. No lado oposto, crianças arremessando seus corpos frágeis contra a areia que empanava as bloquetes do bairro novo, certamente brincavam de esconde-esconde, e eram felizes como nas propagandas de sabão em pó. Olhei tudo aquilo, nada além de uma cena cotidiana, confesso, porém meu coração foi domado pela vontade de escrever sobre o que eu sentia. Não estava feliz, pelo contrário, e naquela tarde abafada como um pote de plástico cheio de sopa quente recém colocado na geladeira, a tristeza me servia de inspiração, afinal, acredito que os melhores textos são escritos com sangue.
 
Manoel de Barros, um de meus escritores favoritos disse, sumamente, que a felicidade é insignificante, é na dor que o homem se faz homem. Devo alegar que mais uma vez ele tinha razão, assim como quando disse sobre a sutileza e relevância de crescer no mato. Os melhores textos que escrevi foram em momentos de dor: o primeiro nasceu feito filho prematuro. Tive uma grande amiga que aos quatorze anos começou a se prostituir, aquilo me magoou em tamanha intensidade que pela primeira vez tive raiva da vida, e minha única saída foi colocar palavras sujas no papel, coincidentemente, minha professora pediu uma crônica como lição, e foi aquilo que eu entreguei. Após ler, ela respondeu engasgada: “Estou emocionada, foi o melhor texto que li. Continue escrevendo”.
 
Meu segundo texto nasceu num quarto branco de uma pensão barata, quando fui atrás do sonho da universidade pública. Havia viajado por doze horas destino uma cidade desconhecida, deixei minha mãe chorosa na rodoviária de Taubaté, com apenas cinquenta reais no bolso tinha que me virar como podia, aquilo era tudo. Sentei, chorei demais, sem que ninguém pudesse ver, e mesmo se vissem, nada poderiam fazer por mim, eu precisava crescer, e isso aconteceria de forma lenta e solitária - enquanto descrevo, imagino o enorme esforço da lagarta se livrando do casulo -. Naquela noite coloquei minha dor numa folha amassada, este texto foi a minha primeira publicação aceita no Jornal Comércio da Franca.
 
O terceiro texto veio quando eu morava sozinha e conversava diariamente com o meu pé de manjericão, afinal, minha melhor amiga com quem eu dividia a casa estava em intercâmbio nos Estados Unidos, e meu melhor amigo em Araraquara com seus pais, afinal, a faculdade estava em greve há meses. Eu continuava sozinha mesmo com a possibilidade de voltar para a casa porque trabalhava como garçonete em dois empregos, e nos momentos que não estava no bar ou no restaurante, eu queria frequentar o maior numero de eventos da faculdade e ler o maior número de livros que me possibilitassem a entrada no mestrado, não foi fácil, justamente porque algumas noites jantei pipoca, não trabalhava na minha área, lavava copos e banheiros depois de noites com muitos clientes com vidas fáceis que gostavam de tratar mal os garçons por acreditarem em superioridade humana pelas formas de trabalho: “Eu bebo, pago, faço o que eu quiser com você”. Vivi isso durante um ano inteiro, e quando meu pé de manjericão se tornou apenas uma planta que 
não respondia os meus chamados, justamente quando esgotei todas as telas brancas de minha casa com uma tinta acrílica vencida, eu novamente escrevi um texto de dor que me possibilitou uma coluna fixa no caderno Nossas Letras do GCN.
 
O osso frio alegra as moscas, a areia suja a roupa, porém é irrelevante num momento de êxtase diante da felicidade. O papel e a caneta juntos são o osso e a areia: meu sangue quente que apresento a vocês em cortejo. 

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