GATO

Por: Roberto de Paula Barbosa

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Depois que me aposentei sempre procurei fazer alguma coisa que me desse prazer, pois o da carne já não me satisfazia, embora, pelo menos, uma vez a cada quindênio costumo frequentar alguma churrascaria. Uma das coisas que gosto de fazer é ajudar alguém que precise, um parente, um amigo, logicamente sem falar em dinheiro, pois empréstimo a amigo, normalmente você perde o amigo e, consequentemente, o dinheiro; para parente então, você perde o dinheiro, mas não o parentesco, o que, às vezes, é plangente.
 
Certa feita, meu cunhado, irmão de minha esposa, comprou uma Kombi Furgão (daquelas que não tem janelas laterais e nem os bancos centrais dos passageiros) para transporte de mercadorias de seu sítio para a cidade. A compra fora efetuada em Goiânia (GO) e seu sítio situado em Cristais Paulista (SP). A dificuldade consistia em trazer a Kombi para seu sítio, pois a viagem era longa e a disponibilidade de tempo era minguada. Assim, como bom samaritano, ofereci-me para trazer a Kombi, aproveitando para visitar meu cunhado e sua família. Tomei um ônibus noturno em Franca direto à Goiânia, juntamente com minha esposa. Chegamos à manhã seguinte e, para compensar a viagem, ficamos uns três dias como hóspedes de nossos parentes. Não fiquei mais porque, dizem que visita, após três dias, é igual a peixe, fede.
 
No dia fatídico de trazer a Kombi, depois de guardadas as malas, algumas caixas e uma porção de coisas que não tem utilidade - aproveitando o imenso vagão vazio - e que no sítio também não tem, mas a qualquer hora pode servir, quando estávamos nos despedindo, minha cunhada viu o gato amarelo, arisco, cara de poucos amigos, mas que sua mãe ousava em tratá-lo com certo carinho, embora a recíproca não fosse verdadeira. Como sua mãe não estava presente nesse momento e minha cunhada desejando ficar livre do felino, pediu-me para levá-lo e soltar lá pelas bandas de Araguari (MG). 
 
A cabine, se é que se pode chamar assim, é separada do vagão por um aramado resistente e tem apenas uma abertura de uns 10 cm. x 10 cm. para que se possa destravar a porta do passageiro, sem sair da parte traseira. Minha cunhada, com muito jeito e alguma paciência conseguiu embair o gato e, rapidamente, colocou-o no vagão, fechando-se a porta a seguir. De aparentemente calmo e tranquilo, o gato tornou-se uma fera enjaulada, rodopiando todo o compartimento de carga, por sobre as caixas e malas, rosnando, bramando, e agatanhando a pintura interna da Kombi. Por via das dúvidas, fiz uma bucha com jornal velho e coloquei na abertura do aramado, para evitar qualquer surpresa. Imediatamente dei partida na Kombi e saímos, eu e minha esposa, como se estivéssemos puxando uma jaula de circo, com uma fera a rosnar em nossos cangotes. Seja lá o que Deus quiser.
 
Dirigindo por avenidas e ruas de Goiânia para chegar à rodovia, rindo da maneira como o gato se comportava, após algumas quadras, minha mulher, ficando muito séria, disse com uma voz espavorida: - Roberto, o gato!!!...
 
Prestando atenção ao trânsito não observei que o gato já estava sobre o console da Kombi, na frente de minha esposa, com os olhos vermelhos e esbugalhados, mirando o trânsito lá fora, mas sem entender como sair. Calmamente, estacionei a Kombi, abri a janela do meu lado, que consistia num vidro corrediço, cuja abertura era menos da metade da largura da porta. O gato moveu-se sobre o console, na minha direção, mas sempre colado ao para-brisa, e passou por sobre meu ombro esquerdo, sem me tocar, e sem ver que a janela estava aberta. Passou por sobre o encosto da poltrona, até chegar ao ponto da abertura que ele havia cruzado, já que a bucha que eu tinha colocado caíra sem que nós percebêssemos. O gato deve ter feito esse trajeto, pelo menos umas duas vezes. Nesse momento, minha esposa abriu cuidadosamente a porta ao seu lado e ficou imóvel. Quando o felino percebeu a abertura, saiu numa disparada e, mesmo sem se despedir, fugiu como um foguete sem olhar para trás. Ainda pude vê-lo pelo retrovisor, quando atrave
ssou a avenida em que estávamos, numa velocidade incompatível com a sinalização existente. 
 
Aliviados e, de certa forma, jubilosos por não forçar a natureza felina goiana para uma mineira, continuamos a nossa viagem até o destino final, rindo até hoje, quando nos lembramos de tal saga.
 
Ainda pensei que o bicho poderia voltar à casa de minha cunhada, pois os animais conseguem tal façanha, mas não, depois dessa, acredito que ele tenha procurado um lar onde não houvesse cunhados e nem Kombis.

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