Vida nova aos sessenta

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

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Uma sombra escura encobriu-a quando seu marido faleceu repentinamente. Confortada pelos amigos e por Leo, seu único filho, Ivone demorou a entender que sua vida mudara. Tinha sido poupada de todas as atribuições cotidianas, seu marido, provedor e protetor, queria vê-la, sempre, alegre, disposta, bem cuidada para ele. Esta parceria feliz durara mais de trinta anos. Debilitada física e emocionalmente, foi com muito esforço e pela necessidade que se inteirou do funcionamento da casa e de sua situação financeira. Com a ajuda do filho, foi, aos poucos, organizando-se, enquanto a saudade a feria, perdera a ternura de um marido e o ardor de um amante. O passar do tempo trouxe a inquietude, a ausência de uma fala carinhosa, o sono que não vinha, aguçando a solidão. Ela estava tornando-se infeliz.

Num encontro casual, reconheceu Álvaro, antigo morador do bairro, também viúvo, galante e gentil. Partiu dela um convite para um café em sua casa e outros mais vieram, pois identificaram –se com as ideias e predileções em comum e sentiam-se bem com as longas e prazerosas conversas que trocavam.

Assim que o filho soube destes encontros, opôs-se, firmemente, alegando que ele não era adequado para ela, tendo em vista a vida pregressa dele. Corriam histórias de abandonos, traições e inconstância. Ivone entristeceu-se, sabia que Álvaro, agora mais velho, amargurava-se com seu comportamento anterior. Ela o incentivou a perdoar-se e libertar-se destas lembranças incômodas. A beleza da vida oferecia-se para quem quisesse vê-la. O tempo deles era aquele, o passado se fora!

Como continuaram se vendo, Leo rompeu com a mãe. Ela sofria e se questionava se cabia a ele interferir na sua vida afetiva. O que sabia ele de seus sentimentos, de suas aspirações? Se era feliz com sua esposa e seus dois filhinhos, por que então esta oposição a sua felicidade? Decidiu lutar pela vida nova que a esperava. Álvaro e Ivone prepararam, com entusiasmo e romantismo, uma viagem para consolidar a união que já existia entre suas almas.

O tempo fez o filho entender a escolha de sua mãe e aceitá-la. O direito de ser feliz em qualquer idade!

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