A Capela dos Ossos

Por: Sônia Machiavelli

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Não sei se por conta da Festa do Halloween e, depois, por causa do Dia de Finados, me pus a pensar em  Évora, a joia do Alentejo, Patrimônio Comum da Humanidade desde 1986, segundo a Unesco. Com menos de 50 mil habitantes, distante hora e meia de Lisboa, vive repleta de turistas que ali vão conferir o acúmulo de história do único centro urbano lusitano pertencente à Rede de Cidades Europeias mais Antigas. 
 
Dos celtas fundadores herdou o nome Eburos, que significa “terra dos teixos”, uma espécie de árvore (aliás, todos os Teixeiras  têm seu nome de família ligado a um antepassado proprietário de uma teixeira, um bosque de teixos). A palavra evoluiu para Ébora e depois Évora. Dominada por romanos até o século V, visigoda até o VIII, moura  pelos quatro séculos seguintes, tornou-se afinal portuguesa no ano 1165, quando um tal Geraldo Sem Temor expulsou dali os muçulmanos, numa das muitas batalhas pela Reconquista. 
 
Destes períodos de construção, luta, resistência, defesa, formação do caráter nacional, são especulares alguns  resíduos da presença goda, inclusive na ficção de Alexandre Herculano, autor de romances históricos; o Templo de Diana, de grande significado estético; o aqueduto  Águas de Prata, também legado romano que ainda abastece a cidade; o alcácer muçulmano e os detalhes da arte mourisca, acenos da intensa contribuição islâmica. Parte de um abraço que foi amplo,  fragmentos  milenares de muralhas imponentes se recortam contra o céu que no outono exibe tom de intenso azul. Fora delas, vagas lembranças de  mosteiros, do bairro chamado judiaria, de palácios da nobreza. 
 
Dominando a cena, o que se impõe é a Sé de Évora, a maior catedral de Portugal, cuja construção começou em 1186. Muitas dinastias elegeram Évora espaço de lazer e uma delas, a de Avis, chamada de “a ínclita geração”, esteve umbilicalmente ligada à cidade. Resiste até hoje a “Porta de Avis”, única que, entre várias, não sucumbiu ao tempo e suas mazelas. Dom Manuel, rei de Portugal à época do Descobrimento do Brasil, passou ali muitos verões. Em 1540, seu filho Dom Henrique foi nomeado primeiro arcebispo e, com prestígio e créditos da Companhia de Jesus, criou a Universidade de Évora, a segunda mais antiga do País. 
 
Entretanto, diante de tantos monumentos, o turista que por alguma razão não for à Capela dos Ossos perderá uma das importantes atrações de Évora, talvez seu “ex-libris”. Parte da não menos conhecida Igreja de São Francisco, foi edificada no século XVI por iniciativa de três frades franciscanos cujo objetivo parece ter sido lembrar aos homens a transitoriedade e a fragilidade da vida humana. É o que percebe o visitante ao ler a inscrição no pórtico de entrada: “Nós, ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos”.
 
Formada por três naves de aproximadamente 20 metros de comprimento e 10 de largura, a capela é iluminada por luz natural que entra por pequenas frestas.  Todas as paredes e pilares são revestidos com ossos e crânios humanos, cuidadosamente dispostos, ligados por um tipo de cimento marrom claro. As abóbadas são de tijolo rebocado  em branco e pintadas com motivos que aludem à morte. Calcula-se que sejam cerca de 5000 as caveiras que ali se encontram.
 
Conta a história que na época existiam perto de quarenta e dois cemitérios monásticos em Évora e eles ocupavam muito espaço. Reza a lenda que foi  em busca de solução que os monges franciscanos extraíram os ossos do chão e os utilizaram para construir e decorar a capela. Entre a história e a lenda penso que este monumento de arquitetura, que se poderia chamar de penitencial, foi inspirado tanto no gosto barroco pelo tema da morte como pelo exigente espírito da Contra-Reforma.  
 
Tendo passado por manutenção recente que custou ao erário público 3 milhões de euros, a Capela dos Ossos não assusta, como se poderia supor. Ela inspira reflexões sobre nosso tempo no mundo e a precariedade de nossas estruturas físicas.  O  lema inscrito no portal é inequívoca menção à realidade da qual às vezes ilusoriamente tentamos escapar. E alguns versos sem autoria, preservados num dos cantos da capela, são um reforço a esta ideia:  
 
 
“As caveiras descarnadas
São a minha companhia,
Trago-as de noite e de dia
Na memória retratadas
Muitas foram respeitadas
No mundo por seus talentos,
E outros vãos ornamentos,
Que serviram à vaidade
E talvez…na eternidade
Sejam causa de  tormentos”

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