ADEUS, MATEMÁTICA

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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O rapaz terminaria os estudos de segundo grau daí a meses e já delineara o futuro: seria professor de Matemática, igual à dona Ana Maria, igual a Pedro Nunes Rocha. 
 
- Escola de Matemática, só na USP – diziam.
 
A USP ficava em São Paulo, lugar muito longe, muito grande. Não conhecia ninguém naquele mundão de cidade. Para mudar-se para lá, freqüentar escola, precisaria de dinheiro, pois talvez demorasse a arranjar emprego. Então, pediu ao chefe Alberto Eliezer, pediu ao gerente geral, Alfredo Sampaio, pediu ao Higinote, o dono da firma, conseguiu: foi demitido da Casa Higino Caleiro, recebeu indenização.
 
Viajou a São Paulo, conheceu a universidade, colheu informações e voltou animado. 
 
- Vou ser professor de Matemática.
 
O primo Nilo veio de Cássia, pediu dinheiro emprestado.
 
- Por uma semana.
 
A semana virou vida inteira: nunca mais viu o Nilo, nunca mais viu o dinheiro da indenização.
 
Adeus, Matemática.
 
Sem emprego, sem dinheiro, ouviu por meses as reprimendas da mãe.
 
- Eu falei pra não sair do emprego... falei pra não emprestar o dinheiro...
 
 
Um dia – quase duas horas da tarde, a mãe foi ao quintal, interrompeu leitura de livro.
 
- Tem um amigo seu lá no alpendre.
 
 Era o Pedrinho Tasso. Estava alegre.
 
- Quer trabalhar no banco ?
 
Queria trabalhar em qualquer lugar.
 
- Então vamos lá... Você tem que fazer um exame.
 
- Sem estudar ?
 
- Precisa estudar não. O banco não tem beque-central pra disputar o campeonato dos bancários, mandou eu arranjar um.
 
- Mas...
 
- Deixa de lero-lero, vamos depressa.
 
Foi, respondeu cinco perguntas de Português, resolveu cinco problemas de Matemática, nunca soube se errou, se acertou as questões propostas. Lembra que o gerente deu ordem:
 
- Vai em casa e bota uma camisa decente e volta depressa.
 
Começou a trabalhar naquela mesma tarde no Banco Mercantil de São Paulo.
 
O time de futebol do banco não tinha só beque central. Não tinha centro-avante, não tinha goleiro... Tinha era um monte de pernas-de-pau. Perdemos a maioria de nossos jogos, nunca vencemos um campeonato.
 
Cinqüenta anos depois, um olhar baço se debruça atentamente sobre uma fotografia. Reconhece o uniforme da equipe do Banco Mercantil, reconhece as arquibancadas de madeira do Estádio Coronel Nhô Chico
 
E só.
 
O dono dos olhos não se vê, não se reconHece em meio às nuvens que deformam fisionomias. Aproxima a foto, afasta-a, busca melhor ângulo, procura claridade maior... e nada.
 
E, no entanto, sabe que está ali, ao lado de Pedrinho Tasso, de Chiquinho Queiroz, de Marins, de Calimério, de Juarez Tassinari, de Airton Sandoval Santana, de Chico Mata-vaca, de Antônio Enciso, de Lauro, de Wilson Palamoni.
 
Os olhos se esforçam. Em vão.
 
Entendem que o tempo aplicou dribles formidáveis, chutou a visão, a juventude e todos os números.
 
E venceu, invicto, todos os campeonatos.

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