Árvores enlutadas

Por: Sônia Machiavelli

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“Você já está preparando a festa do meu primeiro centenário?” -perguntava um bem-humorado Frans Krajcberg à curadora e amiga Márcia Barroso do Amaral, quando esta o visitava no Sítio Natura. “Eu me acho cada vez mais jovem, não penso na velhice”, repetia aos que o procuravam no município baiano de Nova Viçosa, onde vivia desde 1972 e erguera uma casa sobre tronco de pequizeiro, a doze metros de altura, o concretizado sonho de todo menino. Apesar do desejo de viver, e da energia incomum, não resistiu à doença que o havia acometido e morreu aos 96, num hospital carioca, no último dia 15, deixando ecoar no ar uma queixa: “Vou para a floresta e me sinto tão queimado como as árvores.”

Essas e outras frases aspeadas permearam os obituários de jornais impressos, portais e revistas nacionais e estrangeiros desde a noite de quarta-feira. Entre elas, foi mais uma vez contada a história do polonês que teve a família inteira dizimada num campo de concentração e, terminada a Segunda Guerra Mundial, veio para o Brasil: “Fugi de tudo o que é cruel, mesquinho”, falou em entrevista se lembrando de seus parentes que tinham sido enterrados em vala comum no Holocausto.

No Rio de Janeiro, onde chegou em 1948, dormiu ao relento durante uma semana, na praia do Flamengo. Depois foi para São Paulo e mesmo sendo formado em engenharia e artes pela Universidade de Leningrado, atual São Petersburgo, trabalhou como operário. Mas foi por pouco tempo; três anos depois estava ajudando o também jovem Abraham Palatinik a organizar a Primeira Bienal Internacional em São Paulo, onde expôs duas telas. Na de 1957 seria premiado por suas Samambaias, óleo sobre tela, herança do curto período em que morou no Paraná e se escandalizou com a visão das primeiras árvores queimadas que lhe lembraram soldados calcinados em campo de batalha. Em 2016, o polonês que tanto se orgulhava de sua nacionalidade brasileira voltou a ter obras expostas na Bienal: a Sala de Krajcberg, com curadoria de Jocken Volz, atraiu grande público. Era a metáfora para um fechamento de ciclo, um desses acasos que tornam a biografia do artista ainda mais comovedora. Nesta última vez, não mais pinturas, gênero que abandonou tão logo se apaixonou pelas árvores brasileiras, e sim esculturas ecológicas, arte que criou ao ver o que estava ocorrendo já no começo dos anos 60: “Vocês não sabem o que está acontecendo na Amazônia. É um massacre. É uma floresta única no planeta e está sendo destruída”.

Não havia brotado no jardim das palavras o uso do substantivo ecologia; e o conceito de preservação ambiental era semente ainda a ser plantada quando o artista começou a gritar aos quatro cantos: “O homem é um ser brutal, ele mata tudo, ele destrói tudo! Salvem as árvores! Salvem as florestas do Brasil!” Denunciou queimadas no Acre, desmatamento da Amazônia, exploração selvagem de minérios em Minas Gerais, a morte de milhares de tartarugas marinhas no litoral baiano. Defendeu a Vida o tempo todo, com questionamentos verbais, gravuras, esculturas e fotos que se encontram em vários livros por ele publicados nas últimas três décadas.

Pintor, escultor, gravurista e fotógrafo, consagrou sua arte e sua existência à causa do reino verde: “Amo tudo o que nasce e cresce, amo o vegetal”, disse reiteradas vezes referindo-se às belezas da natureza no Brasil, país onde ele se sentiu renascer depois dos sofrimentos inomináveis impostos pelo regime nazista. Não saía à procura de troncos e raízes calcinados ou abatidos pelo homem. Ele os encontrava nas suas idas à floresta para proteger, sentir e abraçar as árvores. Levava-os para seu sítio e transformava-os em obras de arte. Cumpria um luto: chorava pelas espécies que via sendo dizimadas e com o que restava esculpia formas que deveriam soar como um grito de protesto e de alerta aos mais sensíveis.

Ao longo de meio século plantou cerca de 10 mil mudas de espécies nativas da mata Atlântica, cujo bioma está seriamente ameaçado. E produziu centenas de esculturas com troncos, raízes, caules, cipós. Suas obras estão espalhadas pelo mundo, em museus como os de Oslo, Milão, Paris, Jerusalém e Roma, só para citar cinco conhecidos centros urbanos. Em Curitiba o Espaço Krajcberg, no Jardim Botânico, exibe 114 obras. Andei perquirindo minha memória mas não me lembro de ter visto esculturas dele em Inhotim- um museu onde sua obra encontraria, imagino, grande sintonia, pelo diálogo possível com outros grandes artistas plásticos que lá estão. Quanto ao ateliê do Sítio Natura, que estava sendo transformado em museu, será com certeza concluído por obra de seus fiéis amigos, já que das políticas públicas do nosso saqueado país nada há a esperar: elas nunca contemplaram as artes como seria justo e necessário; nos últimos tempos, a situação ficou ainda mais aflitiva.

Imbatível na arte de resistir, Krajcberg às vezes baixava a guarda e se queixava. Numa entrevista em Paris, cidade que o condecorou com sua mais honrosa medalha, a Vermeil, pela contribuição às artes, e cuja prefeitura lhe ofereceu espaço onde se encontram algumas de suas obras, disse a jornalistas: “Lá no Sul da Bahia não me dão nem bom dia. Não sei o que vou fazer. Venho trabalhando sozinho, não sei se tenho mais força.” É possível que não conhecesse o ditado brasileiro que contém grande dose de sabedoria: “Santo de casa não faz milagre.”

Perdemos na última quarta-feira um ser humano de valor ético incomum, porque alimentado pelo desejo de salvar não um homem, mas a humanidade, através da salvação do planeta ameaçado. Frans Krajcberg viveu com uma coerência tão inquebrantável e uma fidelidade tão arraigada a seus princípios que é bem possível que as árvores que o conheceram e a quem ele abraçou fiquem por muito tempo enlutadas. Quanto aos humanos, nada se pode dizer, especialmente num país como o nosso onde a atividade predatória virou esporte diário em todos os segmentos.
 

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