Levanta daí "G"!

Por: Angela Gasparetto

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03h00 horas da manhã. Não consigo dormir. Meu coração está pesado. Minha mente cansada e tenho um nó na garganta.

Após um calmante e um chá, sinto que nada resolvem. Então decido escrever.

Escrever sobre ela. Ela que já tem 91 anos de idade, nem parente mesmo é totalmente, e sim uma tia-avó do meu marido. Mas vendo-a deitada, para não dizer prostrada em uma cama de hospital, meu coração fica em frangalhos.

Todos em algum momento ficam doentes e morrem; aliás, é a ordem da vida.

Mas quando você se depara com uma pessoa que conviveu contigo por mais de 20 anos, que se tornou seu parente não só por formalidade, mas por adoção e principalmente pelas histórias, alegrias e sofrimentos vividos contigo, tudo mudo de figura.

No final da vida, foi morar em um lar para idosos. Restou muita solidão e afastamento, por mais que a visitássemos ou déssemos toda a atenção.

Na última vez que fui vê-la, ela me disse, “Olha, filha, não sei como vim parar aqui nesta casa!” Fiquei sem palavras. Pois, por mim, ela nunca teria ido para “aquela” casa.

Hoje no hospital, olho para ela e observo seus cabelos ainda bem cuidados, suas unhas elegantes.

Mesmo no fim, ainda tem porte, carrega consigo a sua essência de mulher fina e decidida.

Em silêncio fico observando-a e não sei por que, agora no seu fim, começo a sentir uma grande identificação com ela. Nunca havia pensando sobre isto; aliás, devido à sua forte personalidade, tinha quase certeza de que não.

Mas avaliando sua história como mulher, sua luta e seus sonhos, não tem como deixar de admirá-la e mesmo me identificar. Ela é para mim o outro lado de um Brasil moderno, ao qual a geração da minha avó e mesmo da minha mãe não tiveram acesso, mas também de um país que se apresentou muito machista na sua década, como até os dias de hoje.

Espero que não seja o seu fim. Que ela supere este momento, que se levante da cama, mesmo com o Alzheimer avançando, dê-nos uns dos seus sorrisos de garota marota que enfrentou o mundo sozinha aos 18 anos e venceu.

Precisamos tomar café juntas de novo, rir das mazelas da família, lembrar os casos de viagens, as brigas com os namorados, as festas e os vestidos.

Levanta daí, “G”; “bora” para o Guarujá como fazíamos; “bora” viver a vida que nos resta!
 

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