QUE NEGROS SOMOS NÓS *

Por: Carlos de Assumpção

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Para meus netos, Matheus e Thiago
 
 
Que negros somos nós que nada sabemos dos
quilombos que ensinaram liberdade no
país inteiro
 
Que negros somos nós que nada sabemos das lutas
 gravadas com sangue suores e prantos na
 memória da história
 
Que negros somos nós que nada sabemos das
 glórias dos tempos idos dos horrores sofridos
 por nossos  avós
 
Que negros somos nós que nada sabemos da
 linguagem telegráfica dos tambores
 
Que não mantemos acesa a chama que outrora 
brilhara como estrela-da-guia
 
Que nada fazemos para descobrir nossa origem
nossas raízes
 
Que não damos valor à nossa cultura no dia a dia
ou então (o que mais ocorre) a desconhecemos
completamente
 
Que negros somos nós que descrentes nos
envergonhamos da nossa religião que nós 
muitas vezes chamamos de feitiçaria folclore 
mitologia
 
Que negros somos nós que nos envergonhamos de
 negros sem procurar compreendê-los
 
Que negros somos nós que nos envergonhamos da
 escuridão de nossa pele lábios grossos do
 nariz chato do cabelo duro
 
Que negros somos nós principalmente os de
 movimentos negros que dizemos combater
 preconceitos e temos às vezes mil preconceitos
 no peito
 
Que negros somos nós que na ânsia de ascensão
 humilhamos e preterimos nossos próprios
 irmãos mais pobres ou mais escuros 
 
Que quando conseguimos boa situação na vida
 tantas vezes nos isolamos em torre de marfim
 ou casamos com pessoas brancas só porque
 são brancas
 
Que somos ridicularizados nas ruas nas praças
 nos clubes na imprensa em toda parte
 e permanecemos de braços cruzados 
                                                                                             
Que somos pisados a todo momento com crueldade e permanecemos de braços cruzados
Que somos jogados como sucata na lata de lixo
da sociedade e permanecemos de braços cruzados
 
Que negros somos nós que só sabemos chorar à
 beira da estrada e não fazemos nada
 
Que negros somos nós que não marchamos a
 caminho do sol ombro a ombro com outros 
oprimidos de todas as cores de acordo com a
 tradição sob o comando de um novo Zumbi
 
Que negros somos nós que desvivemos desunidos
 desconfiados uns dos outros por aí sem rumo
 sem líder nenhum
 
Que negros somos nós que não mais empunhamos
 a espada afiada de Ogum
 
.................
*O poema faz parte do zine Poemas Escolhidos

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