Uma amiga no fim

Por: Angela Gasparetto

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O telefone tocou à 01h00min da manhã. Era noite de sábado de muito calor, noite de estrelas, de aroma novo e diria até de festa.
 
Veio a notícia. Ela tinha falecido àquela hora. Ficamos todos parados em suspenso, olhando uns nos olhos dos outros sem saber o que dizer.
 
Eu estava sonhando não sei o quê, mas com certeza tinha minha mãe falecida no meio. Seria um sinal? Elas eram muito amigas.
 
Sem mencionar as cenas que vi quando cheguei à Casa de Repouso que ela agora habitava, porque são tristes e inúteis, depois lá estava apenas eu e meu marido em seu velório.
 
 Os poucos amigos e parentes ainda não haviam chegado. Mas quando alguém morre aos 91 anos, em uma Casa de Repouso, realmente as antigas relações já se perderam há muito.
 
Horas depois, ficamos somente eu e ela. Neste momento, conversei com ela, a confortei como fazia quando eu era a única visita que recebia no abrigo.
 
Durante o enterro, seguíamos em silêncio a pé em um pequeno cortejo e aqueles que como eu não conseguem assistir ao procedimento em si, ficaram à distância.
 
Minha distância atualmente tem diminuído consideravelmente, na medida em que tenho enterrado vários dos meus parentes. Vou tomando coragem a cada perda. Desta vez minha coragem foi um misto disto e da necessidade de apoiar meu marido que ficou sozinho com os coveiros.
 
A alguns passos adiante, de costas, entre lágrimas, eu só conseguia pensar em quantas viagens fizemos juntas; lembrei-me de quando no mar do Guarujá uma onda nos derrubou e ficamos rindo com as mãos presas e a boca cheia de sal. E também me lembrei das nossas longas conversas no café da manhã, das festas de caridade à quais a acompanhávamos, dos Natais, dos risos, das reuniões, tudo.
 
Agora sei que naquela época ela já tinha 70 anos, pois era muito vaidosa e escondia a idade a sete chaves...
 
Naquele momento não me lembrei nem um pouco da sua personalidade extremamente difícil. 
 
Só lembrei-me das coisas boas.  
 
Quando voltei os olhos para o término do enterro, observei que, próximo, uma cachorrinha preta estava deitada bem tranquila sob a sombra da coroa de flores. Vi em seus olhos tanta doçura e resignação, que pensei como é efêmera esta nossa vida.
 
E que não adianta sermos excêntricos, arrogantes, egoístas ou individualistas neste mundo. 
 
Na hora da morte ficamos quase sempre nas mãos de estranhos e ainda bem que “G” terá por companhia a cachorrinha chamada “Pitula”, que com sua doçura e resignação nos mostrou que a morte faz mesmo parte da vida e a aceitação é inerente à mesma.
 
A cena que vi marcou-me profundamente, pois conhecendo a mulher generosa, mas também orgulhosa, que conheci, este momento do enterro foi a cena mais tocante que poderia assistir e que me deu a lição da transitoriedade da nossa existência, quando queremos acreditar que controlamos tudo e todos.
 
Vá em paz “G”, a companhia de um cão é a melhor em uma vida; amigo como este não encontramos nem no outro mundo.

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