Plantio e colheita

Por: Sônia Machiavelli

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Quando começa o ano letivo na ONG “Academia de Artes”, onde leciono português para algumas crianças da rede pública de ensino com dificuldades no léxico, na sintaxe, em compreensão e produção de textos, aplico um teste para poder avaliar de que ponto partir. Nos últimos dez anos, em todo primeiro semestre tenho de preparar um plano de aula para cada aluno, pois as dificuldades são muitas e díspares. Há aqueles que escrevem e leem perfeitamente, mas não conseguem compreender uma narrativa de 30 linhas. Há os que cumprem com precisão estas três etapas de aprendizado, entretanto ficam tolhidos quando solicitados a criar uma história.

Já recebi crianças com tanto transtorno na escrita e na leitura que me custava crer que tivessem passado quatro anos de suas curtas vidas numa sala de aula. E outras que, com dois anos de escolaridade, me surpreendiam pelas habilidades de narração, descrição e dissertação, embora claudicantes na ortografia e na concordância verbal. Esses perfis tem se repetido, com acréscimo de outras características. Se os alunos são assíduos e se consigo despertar o interesse deles, aos poucos os verei avançando de modo que no segundo semestre já possamos trabalhar de forma mais coletiva. 

Os professores dos vários cursos oferecidos enfrentam os mesmo desafios. Cada aluno chega com uma história singular que vai sendo desvelada aos poucos. O processo de identificar as principais dificuldades torna-se essencial para que cada educador possa iniciar com segurança e foco o seu trabalho, que é na verdade um plantio. O terreno precisa ser reconhecido em suas potencialidades; a semeadura praticada com desvelo; as sementes observadas com cuidado.

Pede a honestidade que se diga, e é triste reconhecer, nem todas vingam, em que pese o empenho no adubo e na irrigação; algumas é como se desistissem antes mesmo de irromper no solo. Não são poucas as que pedem a retirada das ervas daninhas que as cercam e ameaçam sufocar; é bíblico separar joio de trigo. Entretanto, outras brotam até entre tiriricas e com vigor crescem a olhos vistos. É óbvio que aquelas que se desenvolvem rápido enchem de esperança o coração do plantador. Fica claro também que ele tem de ser paciente com as que demoram a se erguer do chão e clamam por muitos apoios até se firmarem sozinhas. 

Por conta disso tudo penso que ser voluntário em ONGs como a nossa pede condições que derivam da imprescindível generosidade: saber gratificar o retorno positivo; e suportar a frustração quando, apesar de todo o envolvimento, a haste mingua, as folhas estiolam, as flores nunca aparecem, os frutos são apenas rascunho de sonhos.

Nesta altura acho que posso falar em nome de todos os voluntários, ao concluir que destinar algumas horas de nosso tempo às crianças e adolescentes que nos buscam tem sido um exercício que, se por um lado nos exige muito, por outro nos amplia o olhar para a grandeza do existir, e nos mostra quanto podemos fazer de diferença na vida de uns tantos.

No evento de encerramento deste ano, realizado no sábado, 9, era perceptível a desenvoltura e a segurança dos que se apresentaram nos números de canto, violão, ballet; ginástica artística, capoeira, taekwondo; declamação, canto coral; e dos que mostraram seus avanços em biscuit, artesanato, costura, pintura em tela, iniciação à informática e outros.

Terminada a festa, que teve salgados da Dalva, bolo oferecido por Hosana, pipoca e algodão doce nas carrocinhas, sorvete de vários sabores, mais sorteio de prêmios, avaliamos junto à Sandra Machiavelli do Carmo, coordenadora pedagógica, e Ilda Xavier, auxiliar administrativa, ambas diariamente em contato com os alunos, que as boas maneiras, a facilidade de comunicação, a confiança nos professores, o convívio saudável, a espontaneidade dos gestos, o brilho no olhar, a alegria, o otimismo, até mesmo a clareza das frases mais simples e antes embotadas, expressam ganhos emocionais que valem tanto quanto os cognitivos- ou até mais. Que o diga a psicóloga Rogéria Aparecida Santos Souza, que vem desenvolvendo desde o ano passado importante trabalho com aqueles que precisam de uma atenção mais específica. 

Então, quando penso no título com que Sandra batizou a festa simples mas amorosa, onde nossos alunos apresentaram o que aprenderam e desenvolveram de melhor ao longo do ano, reconheço que ela acertou em cheio: Colheita Pedagógica. Muitos frutos estavam ali, sob o olhar dos que plantaram as sementes e a quem nunca seremos suficientemente gratos. Então, obrigada, Aline de Oliveira Rocha, Anderson Marques, Celina Cardoso Santos, Cíntia Helena de Jesus da Silva, Cláudia Aparecida da Silva Moreira, Edilei Aparecido Pereira, Elis Ferreira Cardoso, Elizabeth Feitosa Liboni, Erick Henrique Pereira Nicolau, Fernanda Caroline Patarelli, Fernanda Cristina Frata Alves, Flordeia Tomás de Oliveira, Francielle Rodrigues de Araújo, Henrique César Sabino de Lima, Imaculada Silva Matos, Isa Granero Capel, José Reinaldo do Carmo, Lara Goulart Neves, Leonardo da Silva, Lindolfo Junior Domingos da Silva, Maria Ângela Baldoíno Ribeiro, Maria Laura Teixeira Figueiredo, Matheus Xavier Louzada, Melina Pires Rodrigues, Pedro Henrique dos Santos Inocêncio, Rogéria Aparecida Santos Souza, Talita Machiavelli do Carmo, Tania Cristina Rodrigues de Mello, Tauane Tagava Martins, Valdir Malta, Vanessa Cristina Schimtzler, Thaynan Rodrigues de Mello, Edna Mantovani, Maria Ferreira, Alexandra Belchior. 

Que Deus lhes pague! Que outros frutos, aqueles imarcescíveis, lhes estejam reservados, pois os merecem, e muito.
 

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