Dona de Si

Por: Angela Gasparetto

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Agora que ela se foi, começo a rever os textos que escrevia sobre ela e suas irmãs e encontro este de alguns anos atrás.

“Não tenho como ignorá-la. Ela é sempre motivo do meu constante observar. Tenho sempre desejos de escrever sobre ela.

Pois caminha pela casa com sua fragilidade escancarada. Seus passos são vacilantes e sinto que mal consegue segurar o corpo de 90 anos.

Vai fazer 90 anos esta semana. Sua pele branca, quase transparente. Seus dedos longos, suas unhas ainda tão bonitas.

Quando a conheci, mantinha sua arrogância intacta e seu porte de atriz dos anos 40. Foi muito bonita na juventude. Quando vejo suas fotos antigas, não me canso de admirar seus vestidos elegantes, sua cintura marcada.

Ela era uma mulher inquieta, dona do seu nariz e viveu além do seu tempo, numa época que as mulheres eram para casar e se acomodar.

Eu a admiro e apesar de sua arrogância que é famosa na família, eu não consegui desgostar dela.

Houve uma época que até chegou a me ofender e nós ficamos alguns anos sem nos falar e até mesmo sem nos ver. Mas tempos depois, quando a reencontrei, sua fragilidade e sua velhice foram mais comovedoras que sua contumaz prepotência.

Hoje a vejo andar pela casa se segurando nos móveis, tentando ainda manter a cabeça erguida e fazer valer seus pontos de vistas. Meu coração se segura para não demonstrar uma piedade que ela não aceita.

E eu a encaro sempre com um sorriso confiante e a trato com o respeito devido à mulher que sempre foi. “Dona de si.”

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