Deixando para trás...

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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O escritório/ateliê seria local de trabalho, enquanto algum dos filhos não o requisitasse para sua própria casa, ou local de trabalho. Teria dois pavimentos, para se adequar à topografia do terreno. Na parte superior, duas paredes solteiras dividiriam, mas não isolariam os ambientes. Um cômodo fechado, de bom tamanho, seria a sala do computador. Banheiro completo, box, chuveiro e pia antiga, que ficava na casa dos avós, tão grande que nos bons tempos serviu de banheirinha para minhas crianças. Uma relíquia. Quando algum trabalho, desejo de solidão ou criatividade batessem, era para lá que eu deveria correr. Prateleiras nas paredes guardariam tesouros e tesouras, álbuns e agulhas, livros e manuais com informações valiosas. No futuro, o futuro ocupante poderia, inclusive, usar o espaço inferior, também bastante espaçoso. Boa dose de criatividade, o espaço todo poderia ser transformado totalmente. Por enquanto, plantas, muitas plantas. Jardim pequeno, árvores, vasos no chão, pendurados, pranchas de madeira antiga. A canga pequena, presente de vizinho da antiga casa, com dois vasos de flor de maio, avencas, samambaias gigantes e anãs. O compressor de ar, presente ganho em um passado Dia das Mães para trabalhos manuais, trepadeiras, móbiles que se moviam ao sabor do vento. Tudo ali possui origem e história. Por ocasião da construção eu tinha três netas pequenas, a maior com quatro anos, duas recém-nascidas. Decidi, por sugestão da arquiteta, construir pequena cozinha na parte inferior, pensando nos dias em que as crianças viriam ficar sob meus cuidados. Eu faria com elas arroz, feijão, assaria bolos e pão de queijo, porque o fogãozinho seria miniatura, mas teria trempe e forno, como os fogões de lenha de antigamente. No pé do fogão, vaso de cerâmica cheio de achas pequenas, aguardava uso. Na parede, panelinhas de ferro e cobre. Sobre a pia, prateleira cheia de latinhas com arroz, feijão, cestinha com legumes. Outra prateleira em estante, maior, abrigava caixas de plástico com pratinhos, talheres, copinhos, xícaras em miniatura, trazidos de viagens . Quem mais aproveitou do espaço, foi a caçula das netas, que nem existia na ocasião em que nasceu o projeto. As outras três não se interessaram muito porque a cozinha ficou pronta logo que a tecnologia ofereceu brinquedos mais atraentes. Há pouco tempo o espaço inferior foi requisitado: vai virar escritório moderno, mas será também local onde se trabalhará com criatividade. Era assim, ficou assim, pensei quando vi o começo da transformação do espaço, com a desconstrução do passado. Nascerá ali local de trabalho e as peças da cozinhazinha serão reutilizadas em outro projeto, em local onde muitas outras crianças poderão desfrutar dela. Assim é a vida. A gente aprende a “deixar para trás”, e segue em frente. 

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