O Natal de Poirot

Por: Sônia Machiavelli

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Bolas coloridas, pinheiros, guirlandas, papais-noéis, presentes embalados com capricho, cardápio especial, canções ternas, gente sorrindo ao redor da mesa, textos e subtextos exaltando  os mais nobres sentimentos humanos. Assim o Natal edulcorado que o marketing  nos vende desde a infância. 
 
Na verdade, a data que deveria percutir a maior lição deixada por Jesus- “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”- acaba se tornando, não raro, festa profana, com futilidades e miséria espiritual. E parece ser neste tempo  que  mais se acirram os ânimos naqueles que se deixaram envenenar durante o ano inteiro, ou por toda a vida, por sentimentos amargos.  Eles chegam pesados de bílis à ceia de Natal. E então, sob a frágil pele da gentileza, tudo pode acabar em indigestão.
 
Ou em morte, que é o que acontece no romance O Natal de Poirot, da grande dama da literatura em língua inglesa, Agatha Christie. Considerada a “Rainha do Crime”,  graças a uma imaginação transbordante e rica habilidade narrativa, a escritora ocupa o terceiro lugar na lista dos livros mais vendidos no mundo. Só perde para a Bíblia e para Shakespeare. Estreou em 1920 com O misterioso  caso de Styles e não parou mais de escrever. Pouco antes de morrer, recebeu a mais alta condecoração do Reino Unido, tornando-se em 1971 “ Dame.” 
 
Mais do que a admirável capacidade ficcional para criar histórias policiais, e mais que a elaboração de um personagem-detetive, Hercule  Poirot, a quem cabe investigar e decifrar  todas  as pistas deixadas pelo criminoso, o grande lance da autora é sua penetração na psicologia dos personagens, que se tornam aos olhos do leitor pessoas muito próximas da realidade. A acuidade com que perfila de maneira aparentemente simples e prosaica homens e mulheres complexos é sua grande virtude. Vemos isso o tempo todo no romance cujo título tomo  emprestado para estes comentários.
 
A história se passa na Inglaterra e  acontece entre os dias 22 e 28 de dezembro, com seu ápice na noite de 24. O cenário é uma mansão (nenhum termo é melhor para essas  grandes casas inglesas) onde vive o bilionário Simeon Lee, “um tipo que punha em movimento certas forças que, no final, provocaram sua morte”, como dirá depois em retrospecto uma de suas noras. Homem  autoritário, irônico e opressivo,  afastou de seu convívio todos os filhos, à exceção de Alfred, que continuou, já na meia idade, em sua companhia, numa dependência doentia. 
 
Simeon See resolve convidar  outros três filhos, a quem não vê há muitos anos, para sua festa de Natal. Chega  então o melancólico e sentimental  David, culpando o pai pela morte da mãe ocorrida há longo tempo.  Vem o rebelde Harry, com fama de pródigo e excêntrico. Aparece o avarento e mal-humorado George, cujo maior orgulho é ter  conquistado  um posto burocrático. Aceita o convite  também a neta  Pilar, jovem órfã  representando nesta família descompensada  sua  mãe recentemente falecida. Então, quando todos estão reunidos na sala de jantar, Lee é assassinado no andar de cima da casa. Além dos filhos, das noras, da neta, do enfermeiro e do indefectível mordomo, ninguém mais se encontrava ali na hora do crime. 
 
Pouco depois, entra em cena Hercule Poirot. De passagem pela pequena cidade, é convocado pelo chefe de polícia a ajudar nas investigações.  Ele o fará da forma como se tornará reconhecido nas muitas outras histórias que viverá  em livros subsequentes.  Ou seja, de maneira nada convencional, buscando pistas e fatos que não fazem sentido para outros policiais, mas têm significado para ele e, assim, para o leitor, que o segue  juntando partes. E vem dele, visível alter ego da autora, as observações mais argutas, como esta, logo no início da história, quando conversa com o delegado Johnson:
 
“Existe, no Natal, um espírito  de boa vontade. É, como vocês dizem, “o que se deve fazer”. Velhas brigas são esquecidas, os que entraram em desacordo consentem em concordar mais uma vez, mesmo que temporariamente.”  E continua, como se tivesse intimamente estabelecido uma oposição entre grupo e indivíduo: “ As famílias, agora. Famílias que estiveram afastadas durante o ano todo reúnem-se mais uma vez. Bem, nessas condições, meu amigo, você tem de admitir que haverá muita tensão. Pessoas que não se sentem cordiais  fazem um grande esforço para aparentar cordialidade! E conclui: “Condições artificiais provocam reações naturais”. Aliás, embora a narrativa seja permeada por ricas observações psicológicas partidas da boca de todos os personagens, vem de Poirot as frases mais profundas e verdadeiras a respeito da complexidade das gentes:  “Se um ser humano fala o bastante, é impossível evitar a verdade!” Mais freudiano impossível.  
 
Agora, se você está se perguntando se o assassino do cáustico Lee é um de seus filhos, uma de suas noras, sua neta, seus serviçais, todos com motivos para odiá-lo, conforme expõe nos seis capítulos a narradora onisciente em terceira pessoa, saiba que o mistério só é revelado nas últimas páginas. Quer conhecê-lo? Leia a mais recente edição brasileira, de 2016, da Harper Collins, com tradução de Vânia de Almeida Salek. Para quem gosta do gênero, é livro perfeito para colocar na bagagem de férias.

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