HOMENS E TEMPLOS

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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Na metade do século vinte, o Brasil transitava da fase agrária para a fase industrial. E a face mais visível dessa ocorrência, então, era o êxodo rural.
 
Quando ele ainda não se intensificara, as oportunidades escolares estavam muito definidas em Franca e região: as mulheres oriundas da elite econômica estudavam no internato ou semi-internato do Colégio Nossa Senhora de Lourdes, chamado de Colégio das Freiras, comandados pelas Irmãs........    Os homens daquelas famílias estudavam no Colégio Champagnat, também internato e semi-internato, comandado pelos Irmãos Maristas.
 
No entanto, desde antes da 2ª. Grande Guerra, já se instalara na cidade o Instituto de Educação Torquato Caleiro. Era  escola frequentada pelos  filhos dos profissionais liberais, dos bancários, dos professores, dos pequenos proprietários,  das pessoas que constituíam ao que hoje chamamos de classe média.
 
O êxodo se avolumou, a cidade se espichou para todas as bandas. E o Instituto não mais comportava o enxame juvenil que, cada vez mais enxame, batia às suas portas. Então, rígidos exames de Admissão ao Ginásio passaram a selecionar os concorrentes melhor preparados.
 
Vez ou outra o imponderável matriculava ali uma criança pobre. Osvaldo foi uma delas.
 
Razões muitas e inexplicáveis fizeram o menino aluno de Maria Peixoto, no Grupo Escolar Barão da Franca. Ninguém explica por que a professora fez o marido ir lá na vila, convencer o pai do menino, levar o moleque para seu Curso de Admissão ao Ginásio.  Parece que os deuses do Olimpo, em concílio, decidiram que àquele menino estava reservada a glória de contornar tormentas, rasgando ondas e florestas, abrindo caminhos.
 
- Impossível é Deus pecar – dizia sempre a mãe do menino.
 
Tinha lá suas razões, pois Osvaldo matriculou-se no Instituto de Educação Torquato Caleiro.
 
Só a edificação da escola ocupava meio quarteirão. O restante do terreno era ocupado pelo jardim fronteiro e pela quadra descoberta e pelo terreirão transformado em campinho de futebol, lá nas divisas com a Avenida Major Nicácio. A fachada do prédio olhava para a Avenida Líbero Badaró, e era por ali que entravam e saíam da escola os professores, funcionários e visitantes. Para os estudantes havia dois portões de acesso: os homens entravam e saíam pelo portão da Rua Major Claudiano; para as mulheres ficava reservado o portão da Rua Campos Sales.
 
É fácil deduzir que não havia, à época, as classes mistas.
 
O edifício era constituído pelo térreo e por um piso superior. Em ambos havia, de fora a fora, um largo corredor, e, ladeando-os, ficavam as salas de aula. Era, porém, logo à entrada do prédio, que se localizavam os cômodos destinados à Diretoria, à Secretaria e a Sala dos Professores.
 
A construção moderna, externamente alegre, nada tinha em comum com uma igreja. Por dentro, porém, havia uma atmosfera que lembrava monastérios.
 
E foi por aquelas salas e corredores – caminhando, subindo e descendo escadas – que circularam diante de algumas gerações, mas sobretudo diante de um menino espantado, os mais iluminados espíritos.
 
Quem enxerga aquela luminosidade é o adulto que volta amiúde àquela região sagrada. Ele retorna, caminha pelos longos corredores, sobe e desce escadas, entra nas salas, senta-se e, humildemente, reaprende as lições de Pedro Nunes Rocha e Dona Branca, de  Roberto Scarabucci e de Ana Maria, de Antonieta Barini e de Dona Carlina, de Lineu Vasconcelos e de Mauro Silveira, do Senhor Garcia e do Chafic...
 
Reaprende com o mestre Lingüinha – Luís Martins Filho não mais a poesia indianista, de Gonçalves Dias, nem  a poesia filosófica de Fernando Pessoa. Reaprende a poesia profunda e bela da vida.
 
O adulto retorna e se senta ao lado de Leonardo do Couto Santos, de André Calixto, de Dante Finatti, de Juarez Fumaça – colegas que, em instância última, resultaram também professores.
 
Hoje há um homem envelhecido  que revisita o Instituto. Ali recolhe certezas: se alguma vez pisou firmemente o solo;  se alguma vez escolheu com correção a estrada, foi porque, em dias tão distantes, almas superiores acenderam amanhãs em sua estrada.

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