Pretzel

Por: Sônia Machiavelli

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A menina, que andava aí pelos sete anos, seguia com o pai pelo parque. Ao lado caminhava a mãe, empurrando o carrinho da filha caçula. Ao grupo familiar se juntavam outros amigos. O olhar da menina, como o de todos que mantinham acesa a alma desbravadora, mostrava-se ávido por tudo o que pudesse abraçar. E seu apetite se manifestava voraz- pelas cores, formas, cheiros, sons, movimentos, novidades, descobertas. Foi quando passou ao seu lado criança maior, um menino, braço comprido estendido para o alto, segurando com a mão direita algo desconhecido para ela. Que fosse de comer, logo ficou sabendo:  depois deste primeiro contato, colheu novos flagrantes de gente grande e pequena  saboreando  bocados do que não era pão, bolacha ou bolo. Tinha um formato inusitado para seus padrões de consumidora, e lhe pareceu muito atraente. Sua boca salivou: “Pai, o que é aquilo?” O pai respondeu: “É um pretzel”. E aos ouvidos da menina brasileira em processo de descoberta do mundo, a palavra soou bela e apetecível. “ Pretzel... Eu quero!”- pensou. 
 
Ignoro se o pai conhecia toda a história que fez do pretzel iguaria cuja receita original tem como ingredientes básicos  apenas farinha de trigo, água e fermento e representa forte tradição dentro da cultura  alemã. Nascida na Idade Média como bretzel, logo passou à  francesa Alsácia, que então pertencia à Alemanha, correu a Europa com leves variações na pronúncia,  chegou aos Estados Unidos com a mudança do B em P e  hoje é encontrada em grande parte do mundo ocidental, em casas especializadas e quiosques de shoppings, além, claro, de parques como aquele onde todos buscavam entretenimento. 
 
Se os ingredientes têm variado um pouco ao longo do tempo, com acréscimo de especiarias como sementes de papoula, gergelim, erva-doce e girassol na superfície, o certo é que a forma se  mantém inalterada, a robustecer a tese que vincula a especialidade a uma origem pedagógica e infantil.  A etimologia remete a palavra a um berço latino, brachium, em alusão ao desenho que sugere braços cruzados em oração. Num mosteiro alemão, um monge havia criado a especialidade culinária para  recompensar pequenos estudantes  que conseguiam  decorar rapidamente orações e trechos bíblicos. Por outro lado, licença poética ou veracidade histórica, um pretzel aparece numa tela do século 12, que retrata o banquete de casamento do rei persa Xerxes com a judia Ester. Seria ele então um primo do bagel judeu, de idade milenar?  A técnica pelo menos continua a mesma dos primórdios:  a massa é modelada e depois cozida por menos de um minuto, antes de ser colocada na forma e levada ao forno. É tal procedimento que a torna brilhante e quebradiça.
 
“O pretzel é muito seco, nem salgado nem doce, pra dizer a verdade acho bem sem-graça”, respondeu o pai à filha, quando ela verbalizou seu desejo de provar um. Estavam num daqueles momentos em que se corre para chegar na hora certa a determinado lugar; impensável  recuar alguns metros e entrar na fila pra comprar guloseima. A menina implorava com palavras e olhos; quase chorava. Na  volta, sim, o pai prometia que comprava.
 
O retorno foi horas depois. Mas ambos não haviam se esquecido- nem do pedido, ela; nem da promessa, ele. Então, apesar da canseira física e do natural estresse que até o melhor lazer pode acarretar, lá se foi ele em busca do alimento pedido. Demorou a voltar, porque a barraca ficava longe. E ao fazê-lo estava com mãos vazias. Não havia mais pretzel à venda e no  rosto da menina o pai leu muita frustração. 
 
Mas novo dia raiou, outras oportunidades despontaram no horizonte, uma barraca de guloseimas brotou na frente da menina e seu pai. Tinha chegado a hora. Ela agarrou o pretzel como se fosse a ambrosia dos deuses gregos de que lhe haviam falado na escola e abocanhou uma lateral. Mastigou devagar sob o curioso olhar dos adultos que queriam acompanhar a satisfação do desejo infantil. Mas eis que a fisionomia dela logo revelou o que não se havia previsto: seu paladar não aprovara aquilo. Fez ainda duas tentativas. Mas era nítida sua aversão ao sabor, à textura. A mãe serenamente sentenciou: “Ela não gostou.” O pretzel foi para o lixo.
 
O pai, sensível e sábio, não deixou a experiência passar em branco. Chamou a menina ao lado e lhe disse delicadamente:  “Minha filha, você entendeu agora quando lhe  digo que nem tudo que nos parece bom, de fato é bom para nós?”
 
A isso chamo educar. 

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