A questão da fé no contexto pós-moderno

Por: Adriana Galdino

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Karl Marx, em sua obra  Rumo a uma crítica da Filosofia do Direito de Hegel, fez a famosa observação de que a religião, a fé cristã, é "o ópio do povo". É uma droga e é um "sedativo" ou "calmante" que mantém as pessoas imunes à dor das opressivas realidades sociais e as consola com um onírico mundo de felicidade celestial.
 
Por outro lado, a religião pode funcionar como um "euforizante", um "estimulante" que energiza as pessoas para suas tarefas imediatas, função essa que Marx não percebeu na religião. Mas o ponto mais importante que Marx não percebeu é que, quando a fé cristã funciona apenas como uma droga que acalma ou amplia a performance, ela está de fato funcionando mal. A fé interpretada desse modo é, num sentido crucial, ociosa e não pode exercer nenhum efeito de transformação na vida pessoal ou social. Falando sem meias palavras, uma fé ociosa não é de modo algum uma fé cristã.
 
A verdadeira fé ajuda a restaurar almas e corações abatidos, o que inclui a cura das feridas e decepções que são impostas pelas asperezas e frustrações da vida cotidiana. A fé também energiza para que cada um possa desempenhar tarefas à perfeição, com o poder, a concentração e a criatividade indispensáveis. Ela cumpre sua tarefa do modo mais apropriado quando impõe uma jornada, guia pelo caminho e dá sentido a cada passo dado.
 
Tais questionamentos  constituem  o tema que move Miroslav Volf no seu mais recente livro, Uma fé pública, lançado recentemente pela Editora  Mundo Cristão. Qual o papel da religião no cenário atual? Como adeptos de diferentes religiões podem conviver em harmonia e dialogar sem abrir espaço à hostilidade? Por que é importante reconhecer e reforçar a questão da fé no contexto pós-moderno? Como dar voz à religião nas esferas pública e política? De que maneira os cristãos podem exercer influência positiva nesse cenário por vez  tão conturbado? Estas são algumas perguntas que ele busca responder. 
 
Miroslav conduz o leitor a um rico debate sobre as implicações da tolerância e da liberdade religiosa no ambiente polarizado de nossos dias, e aponta para a busca de relevância e diálogo no cenário excessivamente conturbado das sociedades contemporâneas. De acordo com a visão de Volf, a única maneira de lidar com o problema de conflitos violentos entre diferentes perspectivas de vida — religiosas ou seculares — é concentrar-se nos recursos internos de cada perspectiva para o fomento da cultura da paz. Falando como cristão, o autor menciona que o próprio âmago da fé cristã é pautado pelo amor. Cabe aos seguidores de Cristo, portanto, amar as pessoas. “Amor não significa concordância e aprovação”, ressalta Volf, “significa benevolência e beneficência, em que pesem discordâncias e desaprovações.” É com essa postura amorosa que o cristão poderá participar do debate público em prol do bem comum.
 
O modo como os cristãos trabalham visando à prosperidade humana não é impondo aos outros a sua visão de prosperidade humana e bem comum, mas sendo testemunhas de Cristo, que personifica a vida boa.
 
Em Uma fé pública, Miroslav Volf elucida a questão do crescente secularismo — posição que advoga a separação entre governo e religião — cada vez mais presente no ambiente político. O histórico do secularismo, lembra o autor, não é melhor que o das religiões. “A maior parte da violência perpetrada no século 20, o mais violento século da história da humanidade, foi cometida em nome de causas seculares.” O objetivo das afirmações de Volf, porém, não é condenar o secularismo, mas lembrar que, ao excluir a religião da tomada de decisões e ao impor separação total entre igreja e estado, o secularismo acaba sendo a perspectiva geral favorecida, o que é claramente uma injustiça contra quem adota uma religião.
 
Num momento em que a fé ganha cada vez mais relevância no debate social entre os brasileiros, o lançamento de Uma fé pública vem para contribuir com argumentos bem embasados de um influente autor. Leitura que beneficiará não apenas cristãos, mas também agentes públicos, acadêmicos e adeptos de outras religiões que se interessam pela relação entre fé e esfera pública.
 
Miroslav Volf nasceu em 1956, na Croácia. Doutor em teologia pela Universidade de Tübingen, dirige atualmente o Centro de Fé e Cultura da Universidade de Yale. Autor e editor de mais de vinte obras, publicou pela  Mundo Cristão o livro O fim da memória (2009).

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