Nada é para sempre

Por: Sônia Machiavelli

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Fazemos planos para nossa vida desde que tomamos consciência de que estamos num mundo que devermos desvelar (e nele se equilibrar) se quisermos sobreviver.  No início desejamos brincar e buscamos as formas de fazê-lo nos espaços lúdicos da  infância. Depois, adolescentes, os desejos mudam e corremos atrapalhados mas incansáveis atrás da realização deles. Vem a idade adulta e com ela a batalha pelo trabalho, porque a gente tem de pagar pra nascer, tem de pagar pra viver, tem de pagar pra morrer. Se  constituímos uma família, será  desafiante conviver com o outro e educar os filhos para a vida.  Chega rápida a meia-idade com seus balanços e a sensação de que os anos transcorreram muito rapidamente. Há um  progressivo embaçamento do olhar, sintoma da fração que adentramos quando a velhice se insinua. O tempo se adensa e urge: intuímos quão pouco nos resta e descobrimos meio  assombrados que nossa existência vai se acabando tal qual o resíduo de  areia a escoar na ampulheta. Permeando todas as fases de qualquer biografia, sempre breve por  mais que se viva, insights de perplexidade  a partir de perguntas intrigantes pipocam nos momentos mais inusitados sob múltiplas formas  e diante de variadas circunstâncias: Quem sou? De onde vim? Para onde vou? O que faço neste mundo? As respostas variam muito segundo as décadas. 
 
Na ânsia de conferir  um sentido ao que nos rodeia e ao que nos vai definindo, procuramos organizar o caos. Relacionamentos, trabalho, família, casa, carro, programas, projetos, trajetos, amigos, grupos, leituras, eventos, viagens... Mas a  casa sonhada e conquistada pode de repente apresentar infiltrações ou simplesmente ruir durante uma  tempestade. O carro, acusar problemas insanáveis  no motor. Uma crise trazer  desemprego. O fantasma da doença se corporificar num diagnóstico assustador.  O lazer virar  desassossego. Os amigos se dispersarem. A  paixão acabar, mesmo quando foi muito boa durante os anos em que durou. E o  sonho virar pesadelo. Nada é para sempre. Apenas os diamantes e o amor das mães, forte e obstinado.
 
Muita coisa pode acontecer apesar da imperiosa necessidade, para uns, e do sonho romântico para outros, de que a vida seja como uma linda tela solidamente fixada na parede da sala de estar (“estar o quê?”, perguntou num verso Adélia Prado). Porque, à parte a morte,  não temos certeza de nada. Como nos ensinou Parmênides ao falar sobre as águas do rio nas quais  molhamos nossos pés, e filosofou Lulu Santos na sua canção icônica,  “nada do que foi será/ de novo do jeito que já foi um dia/ tudo passa/ tudo sempre passará// A vida vem em ondas como o mar/ num indo e vindo infinito// Tudo o que se vê não é/ igual ao que a gente viu há um segundo/ Tudo muda o tempo todo no mundo // Não adianta fugir/ Nem mentir/ pra si mesmo.” Pensar nisso costuma doer quando por razões diversas nos encontramos arrebatados  por ideais inalcançáveis de paz e amor  ou de controle obsessivo do presente que não se deixa apreender e vai virando passado.
 
Tudo está em movimento. Este é o outro nome da verdade. A linda pele de pêssego da jovem já começou a se enrugar para virar uva-passa, embora  o espelho ainda não o acuse. As vértebras muito  lentamente se achatam e  fazem  a estatura diminuir e encurvar a silhueta. Os órgãos do sentido são afetados. As articulações se ressentem do desgaste das cartilagens. O desejo sexual  paulatinamente arrefece. No campo dos afetos, estima pode desfazer-se em mágoa, amizade em indiferença, humildade em arrogância, cordialidade em aspereza, carinho em raiva, fé em desconfiança, coragem em medo, certeza em dúvida, consideração em menosprezo...  A memória?  Também não se  manterá intacta, mas  em muitos  momentos fará rearranjos curiosos a favor da Vida. “Há tanta Vida lá fora, aqui dentro sempre/ como uma onda no mar.” A Vida quer se impor. 
 
Talvez navegasse em ondas semelhantes às de Lulu Santos o poeta latino Horácio, (65-8  AC), quando escreveu os versos da sua ode célebre, a que postumamente intitularam  Carpe diem, e que tem entre os principais versos estes da estrofe que se segue:   “Colhe o dia, confia o mínimo no amanhã. /Não perguntes, saber é proibido,/o fim que os deuses darão a mim ou a ti, Leuconoe./ Com os adivinhos da Babilônia não brinques./ É melhor apenas lidar com o que cruza o teu caminho. /Não sabes se muitos invernos Júpiter te dará ou se este é o último,/que agora bate nas rochas da praia com as ondas do mar Tirreno. /Sê sábio, bebe teu vinho e reescala tuas esperanças para o curto prazo./Mesmo enquanto falamos, o tempo ciumento está fugindo de nós./Colhe o dia, confia o mínimo no amanhã.”
 
Mas há controvérsias sobre o tema. Quando se fala de Vida e Tempo, tudo é uma questão de escolha humana sobre como encarar. E, sim, de ilusão também se vive.

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