Tumbérgias são volúveis

Por: Sônia Machiavelli

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Há quatro anos, quando me mudei para a casa onde moro, quis ter um jardim e um quintal. Flores que aprecio, pétalas coloridas sobre fundo verde. Temperos que uso em receitas e me inspiram com seus perfumes nas manhãs frescas. Plantei uma buganvília vermelha na entrada principal e duas mudas de sapatinhos-de-judia alaranjados perto da cozinha e do quarto dos netos. As três agradeceram o trato que lhes demos- nós, o Sérgio, jardineiro poeta, e eu, desde criança seduzida pela beleza e mistério do reino vegetal.

Espaços diminutos não permitiriam arbustos. Mesmo assim, além das espécies citadas, arranjei lugar para pitangueira que ganhei de amigo ligado à ONG Academia de Artes, dirigida por minha irmã Sandra e onde leciono português. Cobri o que restava com vasos. De azaleias, gerânios, kalandivas, rosas-do-deserto, na frente. De cebolinha, salsa, hortelã, manjericão, alecrim, tomilho e ciboulette, nos fundos. Ladeando uma escadinha, sempre-vivas, cujas sementes trouxe de Goiás, dão flores de todas as cores de dezembro a março, depois vão fenecendo até sumirem no chão para brotarem de novo com as chuvas de outubro.

Seguia assim contente com minhas plantas até que um dia pintou o desejo de cobrir com verde um muro lateral branco e sem-graça. Conversei com o Sérgio, troquei ideias com amigas, e depois de algumas opiniões optei pela Tumbérgia, pelas grandes flores azuis e folhas ovais e brilhantes. Plantamos a espécie indiana, contando com sua capacidade de deleitar os olhos e atrair borboletas e beija-flores.

Cuidei dela como de um bebê, com olhos atentos a tudo que pudesse interferir no seu pleno desenvolvimento. Bem rapidamente ela chegou à altura de uma criança de sete anos; e depois, adolescente, avançou pela superfície, subiu a um portão lateral, ganhou o outro lado. Quando se agarrou pelas beiradas e se foi, senti que não precisaria mais me preocupar. Seguiria de vento em popa, enfrentando sol e chuva, ventos e tempestades. Dispensava meus cuidados, firmava-se vivaz, era nítido que se tornara adulta.

E tudo corria sobre carretéis até que no terreno ao lado foi erguida casa assobradada, o que significou novas pessoas, outras plantas. Numa certa tarde soube que a minha Tumbérgia sufocava uma das Strelitzas plantadas em vasos cimentados sobre o muro divisório. Houve reclamações. E tinha razão a vizinha ao protestar contra a trepadeira, numa conversa com o poeta jardineiro. Pensei em cortá-la, mas olhando-a tão viçosa, levando em conta o tempo que lhe tinha dedicado, recuei, no que fui apoiada pelo Sérgio. Isso significou mais trabalho para ele e para mim. Porque é impressionante como a Tumbérgia lança brotos da noite para o dia, e em tal profusão que tenho de esfregar os olhos para crer. Assim, e a partir de então, todos os dias, quando volto para casa no final da tarde, usando uma tesoura que deixo à vista na garagem, corto todos os brotos que consigo enxergar. Pois não é que pela manhã, quando saio, olho e encontro outros, muitos, que tinha certeza de que não estavam ali horas antes?

Por conta da cena surrealista comecei a ler tudo o que encontrava sobre a Tumbérgia. Descobri que seu nome científico (popularmente a chamam Azulinha) deriva do nome do botânico que a classificou- Carl Thumberg ( 1743-1828), discípulo do célebre Lineu. Fiquei sabendo que é uma das preferidas dos paisagistas para cercas-vivas, pois se desenvolve rápido e logo diz a que veio. Com certo receio fui informada de que atrai, além de beija-flores e borboletas, mamangabas, aquelas abelhas grandes, por conta do pólen de suas flores que parecem cálice. E, que coisa!, num artigo assinado por jardineiro amador num site sobre plantas, aprendi que ao gênero das trepadeiras pertencem três espécies: sarmentosas (as que têm gavinhas), escandentes (as que apenas se apoiam em outras) e as volúveis.

“As Tumbérgias são volúveis. São plantas que quando os ramos tocam num obstáculo enrolam-se subindo em espiral. Em geral a fixação acontece em suportes compridos e estreitos. Quando atingem o teto do suporte e não têm mais para onde subir, ficam com seus ramos pendentes.” Enquanto lia isso, e muitas volutas tomavam forma em minha mente, recuperei a imagem do dia anterior, quando vi, perplexa, pois tinha feito podas na véspera, novos brotos da Tumbérgia se enrolando como cobrinhas nas hastes da Estrelitza.

De novo me ocorreu cortar o mal pela raiz. Mas, de repente, assim como num insight, pensei que não era mal. Que era bem. Que tinha à minha frente uma singular manifestação de Vida em seu contínuo movimento em direção à luz... E a Vida dá canseira; representa trabalho; encontra a toda hora obstáculos; exibe lados invasivos e hostis; exige atenção constante; procura apoios se o peso sobre si está demasiado; e sussurra por podas quando traços selvagens se tornam ameaçadores. Mas pode devolver com flores todo o empenho que a ela dedicamos.

A Tumbérgia fica, decidi de uma vez por todas. E a tesoura também. Quem disse que seria fácil?
 

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