Os sessenta anos do meu pai

Por: Ligia Freitas

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Meu pai é desses homens de fibra e de gana,
De troia e de glória.
É desses homens sérios e alegres ao mesmo tempo,
Que vive a contar estórias,
Tristes, alegres, de vida e de morte.
É desses homens de porte grande,
Que já foi de muito cabelo e até de bigode.

Às vezes põe um crucifixo no peito,
E por despeito acredita até na sorte.
Meu pai é desses homens,
Que não tem defeito incessante,
É pessoa ligeira, pensa grande.

Socorre quem passa por perto,
Estende a mão ao incerto,
Não revida, não cria intriga,
Fica a espreita do sucesso.

Meu pai é desses homens cativadores,
Reúne todos a sua volta,
Desafia o impossível e ameniza revolta.
Faz cura milagrosa e num gesto sorrateiro,
Entrosa até com forasteiro.

Meu pai é desses homens
De pouca prosa quando a cabeça ferve,
Mas se logo ela esfria
É de um proseio só que ele se serve.

Encontra amigo pra todo lado,
Por onde anda é chamado.
Até outro dia, até mais ver, até breve.

E se hoje é o dia que meu pai faz sessenta anos,
Quero falar do meu amor por ele,
Que é daqueles grandes por demais.
Tem umas horinhas que dói até o peito
E sinto o calafrio do vento que sopra por de trás.

O amor pelo meu pai é desses de girar o mundo,
Invadir montanhas, descer fundo.
É desses que o olhar embarga,
A fala cala e o calor corre devagar.

É amor de chão, de colo, de sina,
De lembrar-me pequenina,
Ao lado dele pela manhã.

É amor de verdade,
Daqueles que mal se despede já vem a saudade,
Daqueles que quando se faz anos nem se lembra da idade.

E se hoje é o dia que meu pai faz sessenta anos,
Vou lhe fazer um pedido.
Quero um abraço bem apertado,
Desses que o sujeito perde o gingado,
Desses que não se hão de esquecer nunca mais.
 

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