Minha Avó

Por: Bruno Cunha

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Minha Avó, sempre cuidadosa e um pouco preocupada, telefona quando eu, displicente, passo mais de dez dias sem ir a sua casa. Ô, meu filho, tá tudo bem? Sumiu! Digo que sim, que tá tudo bem, mesmo sabendo que ela saiba que não. Sou todo admiração por ela, em especial por essa habilidade de enxergar dentro. Essa habilidade quase mística e espiritualizada de ver o avesso das pessoas. De sentir. Refaço o falso pretexto por outro e digo que estou cansado. Tá tudo muito corrido. O Trabalho. A escola. Os livros. E o tempo que quase não me sobra. Balela. Grande e despropositada mentira. Há sempre tempo para as coisas que importam. O problema sou eu que passo a maior parte desse tempo, de fato, cansado, mas também deprimido, remoendo as tristezas e amarguras da vida, pensando como sou estúpido e infeliz e que tudo ao meu redor é também estúpido e infeliz. Minha avó é a pessoa que me salva do silêncio. Desde pequenino, miúdo, um feto. Dizem que a desenvoltura para subir em árvores veio de um pedido dela de quando ainda morava na barriga da minha mãe. Aprendi cedo e parei logo. Não lembro com que poucos meses resolvi cair em pneumonia e meses depois outra vez. Aprendi também com ela um tipo raro de teimosia ou como melhor diz ela: teimoso é quem teima comigo. Já uns anos mais tarde, beirando uns dez ou doze anos, ela, minha Avó, já cansada de ver o neto voltar para casa chorando, após mais um jogo desastroso de tazo (aqueles discos colecionáveis), ensinou-me o jogo que ela nunca antes havia jogado. Bom, o resto é história. Digamos apenas que minha sorte mudou. Cresci. Matriculei-me na escola de Administração. Viajei. Fiz outras coisas. E em comum, em nada me encontrei. Em todos eles o vazio de sempre. Que é o de hoje também. É no papel que me encontro aos poucos. Que vai ser amanhã? Será que será? Minha Avó, que sabe mais de tudo do que eu, diz para confiar. Que tudo vai dar certo. Não digo nada. Mas penso que ela está errada. A página em branco desse caderno eletrônico e o interior daquele carro dois mil e sete são os únicos que testemunham verdadeiramente os piores lamentos dessa confusão. Vou para o meu quarto e fico a olhar o teto, pois não há nada melhor do que olhar o teto. E me pergunto, desanimado, como tantas outras vezes, por quê? Eis então a resposta: silêncio!

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