No seu pescoço

Por: Sônia Machiavelli

373770
Coletânea de doze contos, No Seu Pescoço ampliou ao cubo a popularidade da jovem nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, agora já  traduzida para meia dúzia de idiomas. Hoje residente nos Estados Unidos, ela somou ao seu trabalho de escritora uma militância expressiva em favor da igualdade de gêneros e de raça. Esteve no Brasil no ano passado falando sobre esses temas de enorme relevância também na sociedade brasileira, onde  ódio e  hostilidade vem cada vez mais nublando  a percepção de conceitos humanistas fundamentais ao convívio saudável, à igualdade de direitos, à riqueza das trocas e à liberdade de opinião. 
 
 Sobre sua escrita, há que se dizer que a competência em transitar entre gêneros literários é no mínimo notável. Desde os ensaios Somos Todos Feministas e Para criar crianças feministas, aos romances Meio Sol Amarelo (merecedor de  dois grandes prêmios literários), Hibisco Roxo e Americanah ( ambos na lista dos mais vendidos nos EUA por várias semanas), até No seu pescoço, acima citado, passando por  fragmentos  e artigos para jornais, o texto autoral, de léxico enxuto e sintaxe precisa, com metáforas originais e plásticas, ela  lança o leitor de imediato num contexto onde questões como diferença, intolerância  e identidade estão a todo tempo clamando atenção.
 
No caso da ficção,  Chimamanda costuma empregar uma técnica estilística que arrasta quem a lê para o universo que constrói energicamente nas páginas onde tantos desvelamentos surpreendem: o emprego da segunda pessoa do discurso para fazer uma aproximação máxima e empática  entre protagonista e leitor. Destaco um trecho do conto em epígrafe:  “Você se enroscou na cama, apertou os joelhos contra o peito e tentou lembrar o que estava fazendo quando seu pai morreu, o que tinha feito durante todos aqueles meses em que ele já estava morto. Talvez seu pai tivesse morrido naquele dia que você sentiu calafrios pelo corpo todo, ficando com os pelos duros como grãs de arroz crus, sem saber explicar por quê.” Antes disso, faz crítica social contundente ao “american way”, através da observação que só parece possível ao olhar estrangeiro: “ Quis escrever sobre como as pessoas deixavam tanta comida nos pratos e largavam algumas notas de dólar amassadas sobre a mesa, como se fosse uma oferenda, uma expiação pela comida desperdiçada. Quis escrever sobre a criança que começou a chorar, puxar os cabelos louros e empurrar o cardápio da mesa e, em vez de os pais a obrigarem a calar a boca, imploraram para que ficasse quieta, uma criança de no máximo cinco anos de idade, até que acabaram se levantando e indo embora. Quis escrever sobre as pessoas ricas que usavam roupas esfarrapadas e tênis puídos, que pareciam os vigias noturnos de grandes propriedades de Lagos.” Aliás, o título do livro é retirado de um trecho deste  conto, onde  a jovem, recém-chegada da Nigéria, tenta se adaptar  aos costumes norte-americanos, o que lhe acarreta sentimentos de ansiedade: “ À noite, algo se enroscava no seu pescoço, algo que por muito pouco não lhe sufocava antes de você cair no sono.”
 
Mas o continente de origem de Chimamanda, a velha África, e a literatura nele produzida também são objeto de crítica, como se vê em Jumping Monkey Hill, narrativa que mostra um grupo de autores  africanos reunidos  num resort de luxo para oficina literária. Organizado por um inglês, Edward, com  representantes do Senegal, do Zimbábue, do Quênia, da Tanzânia, da Nigéria, de Uganda, da África do Sul branca e negra, o desafio é que cada um escreva um conto que depois será lido em público. Ao não nominar os vários reunidos, Chimamanda Ngozi Adichie, pela voz da protagonista, registra como estrangeiros veem a África: um conjunto de países sem contornos definidos, cuja literatura não consegue ganhar singularidade.
 
Como cada conto tem autonomia dentro do conjunto, o leitor pode lê-los  de forma aleatória. Qualquer que seja a ordem, porém, a impressão que os doze causam no espírito é de que estão  costurados por linhas temáticas ancoradas  na imigração, no preconceito, na dificuldade das relações sociais, na vulnerabilidade diante do desconhecido, principalmente no embate com a cultura, com o outro e conosco. O ponto alto dessa escrita eletrizante e reflexiva é a carga emocional  e profundamente humana que elide o tempo todo a possibilidade de resvalar  pelo tom panfletário da crítica social, um risco  que poderia  prejudicar a ficção genuína.
 
 A escrita de Chimamanda nos tira o fôlego e nos retira do conforto, mas não nos nega prazer. Ela me faz pensar em George Bataille, que dizia ser a literatura “o veículo pelo qual tudo o que está entranhado, torcido e retorcido no ser humano, volta à vida e nos permite compreendê-la de modo mais profundo e, de certa maneira,  vivê-la  em sua plenitude, recuperando tudo aquilo que tivemos de eliminar para a sociedade não ser um manicômio nem uma hecatombe permanente.” Ilustra à perfeição esse pensamento Uma experiência privada, para mim, o mais impressionante dos relatos, desses que permanecem em nossa memória de um jeito indelével. Uma estudante de medicina de Lagos, ao visitar sua tia em Kano, no interior, é surpreendida por uma onda de extremada violência, um ataque de milícia, no mercado onde entrou com sua irmã casualmente para comprar alguma coisa. Entre escombros, à  procura de lugar seguro, ela se perde  e acaba dentro de loja abandonada junto com uma senhora muçulmana. As duas mulheres, até por medo da morte, durante a longa noite rompem os grilhões do preconceito e buscam um jeito de se comunicar. No caso, apenas com gestos e, claro, com a linguagem do coração.  
 
É essa possibilidade de diálogo e compreensão entre humanos de culturas díspares e individualidades inequívocas que por vezes  colore de esperança a literatura de Chimamanda Ngozi Adichie, uma escritora cuja leitura nos amplia  a visão do mundo, da literatura, dos outros  e de nós mesmos. 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras