O mundo dos bebês

Por: Ligia Freitas

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Levantei e olhei-me no espelho, não consegui me reconhecer naquele corpinho de bebê. Pernas e braços pequeninos e uma mente frágil, que não sabia ao certo o que fazer e como falar.
 
Sentei e comecei a chorar com um choro de quem queria gritar. Quanta gente apareceu e eu fui passando de colo em colo, como se esse fosse o melhor caminho para me acalmar.
 
-Chamem a minha mãe! Eu queria dizer. E minha mãe logo apareceu para me salvar.
 
Mas para o meu desespero, veio um palpite daqueles certeiros só para me assustar:
 
-Isso é birra, deixe-a chorar. Disse uma senhora sentada na cadeira ao lado da minha mãe.
 
Eu fui logo colocando o meu choro novamente para fora, como quem queria falar:
 
-As pessoas deveriam agir da mesma maneira com vocês, não acha minha senhora? Vocês adultos brigam no trânsito, dão chilique no supermercado, insultam os familiares, tem ataque de nervos aos sete ares. E eu, um pequenino bebê, querendo entender o que está acontecendo comigo, não posso chorar? 
 
-Se a senhora resolver chorar para o seu marido ou lamentar-se para uma amiga, eu vou pedir a eles que a deixem sozinha, sem apoio ou acolhimento. Será que assim a senhora me entende?
 
Eu fui me acalmando e chegou a hora de me trocarem, era cabeça para um lado, bracinho para o outro, sem nenhuma explicação. Eu só queria ouvir as coordenadas, para o meu corpinho se preparar para cada movimento de mão. 
 
E a minha mente que parecia mais com uma bucha usada, pronta para sugar toda água que aparecesse na direção. As brigas dos meus pais me consumiam, as preocupações da mamãe me engoliam e as mentes pesadas que circulavam pela casa me corroíam por dentro.
 
E era assim que o meu corpinho falava: ora febre, ora dor de garganta, ora dor de ouvido, tantas vezes fisiológico, mas outras tantas psicológico, um choro contido.
 
Vivi um descontrole sem fim: de repente cocô, de repente xixi, de repente vômito, de repente dor, ainda bem que tinha o de repente sorriso e o de repente abrigo.
 
Diziam que a minha mãe estava ficando louca com aquela situação. Mas será que não havia lucidez em se deixar enlouquecer no lugar do filho? 
 
Percebi que quanto mais louca é a mãe mais saudável é o filho, porque ser louca é permitir-se vivenciar o mundo desconexo dos bebês, que ora faz curva e ora sai da linha, que ora é terremoto e ora é ventania.
 
Só entra na loucura quem faz conexão, quem mergulha na mesma água, quem sente a mesma vibração. E assim, o bebê de uma mãe louca nunca morrerá afogado, porque sua mãe também está naquela água e se tornará sua tábua de salvação.
 
Volto para o meu corpo de adulto, mal me recupero daquele sonho estranho e já ouço o meu filho chorando no seu quarto. Corro para um beijo estralado.
 
-Pode chorar meu filho, estou aqui, um tanto louca, um tanto insana, mas sempre do seu lado!
 
 
 
 
 

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