Enquanto chove

Por: Bruno Cunha

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Domingo. Chove tanto, como é comum nos dias longos e esperançosos de janeiro, e cá não tenho muitas obrigações a cumprir. No mais é abrir os olhos, sentar à cama, vestir os chinelos então frios, comer um desjejum qualquer e, não tendo outro propósito, voltar a dormir. Não durmo, no entanto, reluto disciplinadamente na esperança de resgatar o sono uma vez mais. Mantenho os olhos fechados. Tento não pensar em nada, mas tentar não pensar em nada é como tentar o aposto: penso. Penso demasiado em assuntos que não me tem valia. Alguém chora. Ouço lá distante. Uma criança. E penso que pode ser cólica ou fome. Acho graça, pois, que sei eu sobre crianças e cólicas? Me calo. Amanhã acordo tão cedo, e eu aqui a perder tempo com besteiras! Penso no trabalho: coordenar isso, analisar aquilo, relatórios, reuniões despropositadas, planilhas, cálculos, tabelas, contratos, compras, e-mails… E de repente me dou conta de que aquela criança sou eu e ela chora pelo enfado do futuro: crianças grandes gastam energia a trabalhar sem amor e a mendigar pela dignidade subtraída. E então ela chora um pouco mais. Por pena de si mesma. Passaram-se pouco mais de três horas do meio do dia e a água não cessa de cair. Chove tão bonito que, decidido a não deixar esse dia acabar inutilmente, vou ao café da Rua Badaró. Sento, propositalmente, num canto afastado, em frente a uma enorme vidraça, e daqui observo todo o entrar e sair de gente e o quase deserto da rua. Tão cinza lá fora, e dentro das pessoas, que parecem todas assim: perdidas, também. Caterino! Alguém me chama. É o barista que traz o café. Agradeço. E me alegro, pois, o café, sem o gosto amargo da pressa, aquece bem mais que o corpo, é um pequeno alento ao espírito. Sinto um vazio prolongado no peito, e no mesmo instante abro o caderno que levo comigo. Bem baixo, de um aparelho de som fixado acima da porta de entrada, ouço Damien Rice cantar It takes a lot to know a man. Anoto a frase na primeira folha do caderno. Releio. E outra vez. E mais uma. Ainda não sei o porquê, mas sinto que essas palavras dizem mais do que a sua significação literal. Por favor, outro café e um cookie de chocolate. Mais um gole, forte. E penso: há de se encontrar um caminho alternativo para a felicidade. Sempre.

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