Desconfortos

Por: Bruno Cunha

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Sinta-se em casa ou não . Roubaram minha casa (furto qualificado, segundo o código penal). Levaram as TVs, celular, maquiagem, roupa de cama. Até roupa de cama! Tivemos sorte, poderiam ter levado muito mais coisas. Não levaram. E sobre isso já confabulamos inúmeras hipóteses: o latido enfurecido e estrondoso do Pingo, nosso cachorro, ou até mesmo os gritos do vizinho ao portão, chamando por meu pai, os assustaram e sumiram. A gente também pensou se tratar de dois meninos, primeiro roubo, afobados, ou dois “nóias” ou talvez dois meninos afobados e já “nóias”. A verdade é que a gente pensa muita besteira. E embora sejamos todos especialistas, pós-doutores em desvendar crimes complexos e em descrever perfis criminais pela Universidade Netflix, na vida real nos resta apenas a superficialidade – a nossa e a dos fatos. Arrombaram a porta da cozinha. Reviraram os quartos, a sala, levaram o que puderam no tempo que lhes foi possível. E tudo aquilo que era nosso e nos foi tirado, o prejuízo financeiro, não nos incomoda nem um pouco. É tudo tão irrelevante comparado com alguém ter invadido a sacralidade de nossa casa, nosso abrigo. Casa! Casa é onde a gente se encontra pra dividir e compartilhar as alegrias e também tudo aquilo que pesa demais em nós. Fez um barulho no portão. Você ouviu? Vou olhar. Não era nada. Relaxa. Por que o Pingo tá latindo tanto? Será que tem alguém ali? Vá lá ver. Trancou a porta? O portão? Ligou para o chaveiro? Parece que vi um cara estranho ali fora. Passou outro num carro bem devagar olhando para cá, meio que rindo. Será que…? Ou será… Não. Ao ter a casa roubada, passada a confusão do primeiro instante, o susto, fica o desconforto de não se sentir seguro no único lugar que deveria ser, acima de tudo, seguro. E piora: dois ou três dias depois você se dá conta que está preso em sua própria casa. Numa modesta, sem TV agora, prisão domiciliar. Ainda bem que não levaram meus livros. * E se não for pedir muito, gostaria, com toda a delicadeza que minhas palavras possam alcançar, sugerir aos senhores ladrões do meu bairro e adjacências que, caso resolvam nos roubar uma vez mais, que ao sair encostem a porta. Da última vez choveu tanto que as suculentas que ficam logo ali na entrada banharam-se mais do que devia. Muito mais. Ocorrido isso, perdi a suculenta mais bonita, rara e frágil entre todas as suculentas que já vi. Tudo por culpa, ou melhor, por conta da sua indelicadeza. Dito isso, deixo aqui aclarado meus antecipados agradecimentos por sua não estimada e nada costumeira compreensão. Agradece!

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