Escritores

Por: Sônia Machiavelli

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Tudo lhes desperta a atenção. Coisas aparentemente mínimas merecem o olhar atento e obsequioso; perquiridor ou terno; indignado mas compassivo. Não há experiência humana que seja por eles menosprezada: tudo possui um sentido que merece ser compartilhado. Enxergam pormenores que certamente não são assimilados pela maioria das pessoas. Quedam-se em êxtase diante das epifanias que lhes desvelam o que até então era mistério. Espantam-se a todo momento com a vida e desejam registrar por escrito suas  impressões para outrem e para o futuro, pois têm noção exata de que o presente foge a todos.  Estão sempre “penetrando surdamente no reino das palavras”, independente do gênero que escolhem para se comunicar. Quem são eles? Todos os escritores do mundo, entre os quais incluo três jovens que têm me surpreendido enquanto editora da página Nossas Letras, no portal GCN: Bruno Cunha, Isabel Fogaça, Lígia Freitas. Registro os nomes por ordem alfabética, a escolha menos contaminada nas enumerações, mas Isabel chegou antes de  Lígia que veio antes de Bruno. E o trio se juntou aos que estão falando aos leitores há muito tempo, como Lúcia Helena Maniglia Brigagão, Zelita Verzola, Carlos de Assumpção, Maria Rita Liporoni, Angela Gasparetto e outros nomes importantes que também se fizeram presentes aqui ao longo dos últimos anos representando parte da escrita literária de Franca.
 
Receber os textos de Bruno, Isabel e Lígia tem dois significados especiais para mim.  Em primeiro lugar, sinto como a literatura continua renascendo em jovens corações, repetindo, aliás, o que acontece desde sempre-   apesar das pesquisas em nosso País desenharem um perfil desanimador do leitor brasileiro; e ainda que o  avanço tecnológico atraia milhões para formas de comunicação digital que se primam pela instantaneidade vem pecando pelo menosprezo à condição humana no que tem de mais precioso à convivência: a ética. Em segundo, sinto-me  gratificada pela escolha que fizeram pelo Nossas Letras quando bateu o desejo de publicar.
 
Porque este é um espaço de resistência oferecido a quem nasceu com talento para escrever, acredita naquilo que escreve, quer fazer chegar sua escrita a outrem, e nunca desiste de seu dom,  tenho acolhido nos últimos trinta anos todos os que me procuram. Um dia, com a força e ousadia da juventude, também busquei, no Comércio da Franca,  a única página quinzenal dedicada na época a autores francanos, e encontrei  ressonância na figura de  Alfredo Costa, que me proporcionou a alegria de ver meu primeiro texto em letra impressa. Sei bem o que significa isso. 
 
Leio os textos de Isabel Fogaça e pressinto a ficcionista de alma incandescente que vai tirar de dentro de seu baú de histórias recolhidas no campo e nas cidades, nos pontos de ônibus e nos trajetos urbanos , entre mesas de restaurantes e bancos universitários, matéria prima para narrativas de muitos personagens. Em Lígia Freitas entrevejo a mulher que passa pela experiência rica e sofisticada da maternidade, tão íntegra na função de mãe, observadora das mudanças que ocorrem em seu corpo, sua alma, seu coração, ao mesmo tempo em que não se desliga de seu entorno e busca captar tudo o que pulsa ao redor para com léxico e sintaxe muito próprios caminhar na definição de um estilo, seja na prosa, seja na poesia.  Bruno Cunha é o fragmento, a condensação, a síntese, o fotográfico, o metafórico, o olhar que nada banaliza e faz do simples, que não é o fácil, algo grandioso que só a palavra literária é capaz de imortalizar. 
 
Celso Lafer, intelectual de vasta cultura, devotado ao Brasil, definiu a literatura como “o sonho acordado das civilizações, um fator indispensável de humanização, a confirmação do homem na sua humanidade.” Antônio Cândido, outro brasileiro maiúsculo que expandiu a noção de crítica literária, lembrou numa de suas últimas palestras que “assim como não é possível haver equilíbrio próprio sem o sonho durante o sono, talvez não haja equilíbrio social sem literatura.”
 
Este nosso país turbulento, confuso, anárquico, ferido pelas idiossincrasias, precisa de muita arte, de muita literatura, de muitos artistas, de muitos escritores para o exercício difícil de traduzir de forma estética a necessidade de reconectar partes para ganhar o todo. 
 
Feliz Páscoa a todos os leitores, na direção de quem pulsa a alma de todos os escritores.

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