Terapia na cozinha

Por: Sônia Machiavelli

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Basta olhar uma criança pequena para constatar que a espontaneidade é seu maior tesouro,  aquele  mesmo que  sábios e  poetas  encontram depois de  muita busca. Manoel de Barros é um exemplo que me surge mais evidente: “Tenho em mim um atraso de nascença/ eu fui aparelhado para gostar de passarinhos/ Prezo insetos mais que aviões/ A velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis”. Conviver  com crianças pode representar  convite para  voltarmos  à  simplicidade dos primeiros anos, quando éramos  inocentes e não nos pesavam as  capas da cultura. Dizem com sabedoria os indianos: “Saber demasiado é envelhecer precocemente”. 
 
Estou sempre me lembrando do comportamento de  meu neto João, então com cinco anos,  no vídeo que  gravou de improviso, apenas porque desejou fazê-lo ao me ver  na cozinha com os profissionais da imagem que me ajudam na publicação da página Comer Bem, no impresso Comércio da Franca e  no portal GCN.  Ao quebrar os ovos para seu fetucine alla carbonara  e perceber que algumas gemas  estouravam na sua mão antes de o ovo cair inteiro  na tigela,  disse para a câmera:   “Ih! Às  vezes a gente acerta, às vezes  a gente erra!”  Verdade incontestável : nada está  garantido na face da Terra. 
 
Se a  cozinha já era um espaço terapêutico para mim, a partir de então, por conta dessa frase, se fez também  lugar para interrogações que vão muito além do arroz com feijão. Descobri  que se o preparo  de  um prato  pede a priori ingredientes específicos e alguma  vontade de acertar, exige por outro a condição de suportar o erro, de tolerar o estourar das gemas quando precisamos de claras sem nenhuma  manchinha amarela. 
 
E por este caminho de reflexão  outro dia cheguei  à conclusão de que o mundo, este que nos foi dado habitar hoje, anda nos negando  em quase todas as suas instâncias o direito ao erro. Cada vez mais somos exigidos a acertar de primeira, seguindo fórmulas  preestabelecidas para que nenhum equívoco nos obrigue a repetir tudo outra vez... Entretanto, mesmo com receitas  seguidas à risca, o resultado pode não ser o esperado, porque somos humanos e falhamos: podemos nos confundir na dosagem de algum  ingrediente; não ligar o forno na temperatura ideal; esquecer a gordura na frigideira um segundo além do desejado;  optar por forma de tamanho incompatível com a quantidade de massa disponível. Etc. Ou, como aconteceu com uma moça que trabalhou para mim nos anos 90, entender errado  a orientação. Depois de cozinhar cabeças de peixe para fazer um pirão, fui atender a uma chamada telefônica e lhe disse que coasse o caldo. Ela de fato o coou. E me ofereceu o mais horroroso  arranjo de escamas, ossos e espinhas que já vi numa peneira. O caldo? Tinha ido embora pelo ralo da pia. Recentemente soube que  nunca se esqueceu  daquilo. Naquele dia  não houve pirão. Mas ela aprendeu para sempre com seu erro. 
 
Por essa e outras  tenho aconselhado a cozinha para gente ansiosa e perfeccionista como um dia eu fui, a fazer cobranças cruéis  em relação a mim e aos outros, pois intolerante com todos os desacertos.  Entre a pia nem sempre impecável  como desejaria  e o fogão que por muitos motivos pode me negar seu fogo, especialmente  diante da faca e do queijo mas distante do apetite, é  que   venho entendendo  como somos precários, pequenos, insignificantes e obtusos diante do Universo  perfeito onde existimos  milagrosamente por tempo ínfimo e de forma às vezes muito caótica. Somos seres em lenta evolução; ter consciência disso é reconhecer humildemente que o erro integra a lista de escolhas que temos de fazer a  todo   momento, desde que entra em cena o nosso livre-arbítrio. Escolher é arriscar-se, mas é assim que vamos aprendendo a viver:  devagar, errando e corrigindo, da mesma forma como vamos aos poucos acertando a mão nos pratos.
 
Demora, frustra, angustia, desafia, mas uma hora gratifica. O caminho é custoso  até que o  bolo da vida chegue bonito à mesa de alguma celebração. Então é justo nos darmos “parabéns”, antes mesmo que outros o façam.

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