Ambrosia

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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A receita mineira original, tal qual vovó e mamãe e mais tarde Maria reproduziam à demanda de filhos, genros, noras e principalmente de netos,  pede  cinco litros de leite,  cinco copos de açúcar cristal, uma dúzia de ovos, duas colheres de nóz moscada ralada, canela em pau à vontade e uma colherinha de chá, rasa, de sal.  Põe-se o leite, o açúcar, a canela numa panela alta, em fogo baixo do fogão. De preferência, daquele de lenha.  Demora para terminar. Em parte por causa da aflição em vê-la pronta; em parte por causa dos momentos importantes: descobrir o momento exato para bater a gemada, e em seguida  jogá-la no doce de leite da panela que ficou a tarde inteira no fogo.  Descobrir o ponto certo do doce de leite, quase a consistência do leite condensado, mas nem tão duro, nem tão mole assim. Ter calma para ver a gemada subir na fervura do doce de leite, para subitamente parar. Decidir onde furar com a colher de pau, a capa quase consistente que se formou sobre a gemada, deixar a boca encher de água só com o cheiro que já se espalhou pela casa afora, acompanhar o doce quase líquido tomar conta da gemada, torná-la pesada, encharcada, consistente. Quando só ficar um pouquinho de doce de leite no fundo da panela, e aquele monte bege e cheio de pequenos interstícios quase boiando nele, é momento de tirar a panela do fogão, tampá-la com pano de prato bem limpinho, deixá-la repousar e não deixar ninguém, ninguém mesmo, pegar escondido uma colher e beliscar a borda daquele monte apetitoso e cheiroso.  Só no dia seguinte é que, com a ajuda de colher grande, vai-se pegando pedaços grandes daquela espuma encharcada e colocando numa vasilha transparente. Esse é o momento de aspergir canela ralada por cima.  Põe-se na mesa para compartilhar. Que regime, que nada! Como geralmente é sobremesa domingueira, é servida no almoço e, à tarde, desaparece da geladeira. O último a comer raspa a vasilha e a coloca na máquina de lavar pratos. E ficamos todos, saciados, a agradecer a receita do prato mineiro que, de tão gostoso, tomou e foi batizado com o mesmo nome da comida dos deuses da mitologia grega.  

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