Entusiasta às invenções

Por: Bruno Cunha

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Um menino que tinha pernas e patas de urso-pardo porque seus pais casaram-se primos. O cachorro da família que falava o idioma humano e às tardes dos dias ímpares fazia terapia, pois não entendia porque nascera homem no corpo de um cão. Teve também o caso da galinha que depois de cozida saiu andando da panela, ora latindo ora miando, sem pena, pelada, com fome, botando galetos já prontos no lugar de ovos a transformar-se em pintos. A senhora Kyrumi jurou ter visto o que não viu e afirmou ter ouvido o que nunca foi dito. Via nas coisas inventadas a possibilidade de expandir-se, tornar-se benquista. Faltou com a verdade mais vezes do que se lembra, e num dado momento, ainda moça, passou a viver em sua própria fantasia, alheia aos acontecimentos reais.
 
A senhora Kyrumi chegou à velhice com as lembranças desviadas. Nada em sua memória era como havia de fato acontecido. Culpava os filhos por sua solidão e maus cuidados. Dizia que haviam, inclusive, tirado dela o direito de assistir aos netos. Malditos filhos meus, bando de ingratos! Puxaram ao pai, aquele miserável. Praguejava a quem quisesse ouvir. Mas a verdade é que dona Kyrumi nunca teve netos nem filhos ou tampouco marido. Sua  personalidade dissimulada e a constante dificuldade de discernir a verdade da invenção acabava por afastar até o mais devoto e paciente dos amantes.
 
Assim como do ar e da água, era também, inconscientemente, dependente dos fatos trocados. Tudo era um contrário aumentado. Queria com isso aproximar-se das pessoas e aos poucos acabou por afastá-las violentamente. Ao buscar de forma atrapalhada a estima, conheceu o acre do desprezo. Criou, sem saber que assim fazia, desconcertos e intrigas entre as pessoas todas. Pôs amigo  contra amigo, esposa contra marido e até pai contra filho. Dissimulou nos afazeres, perdeu e fez perder emprego. Foi incapaz de compreender a si mesma e o mal que fazia aos outros. Fantasiar a realidade era um mecanismo natural como o abrir dos olhos pela manhã. Sofria por não saber ser feliz. No fundo, dona Kyrumi queria só um pouco do que faltava a ela, preencher o oco da alma.
 
Não se sabe ao certo que fim levou dona Kirumi. Chegou, e isso é tudo que se sabe, no exato minuto, dia e hora, a todas as pessoas do mundo, uma carta escrita a punho por ela mesma, dizendo que havia sido sequestrada por um pássaro-elefante de etnia quíchua e que, por favor,  não a procurassem, nunca mais, pois já havia vivido tempo prolongado demais.

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