Quando apenas o silêncio repercute em mim

Por: Angela Gasparetto

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Parada no quarto nestas noites de silêncios quase sacros, quando o vento açoita as janelas da casa, eu sinto o perfume morno do verão que entra pelas frestas e o meu corpo como que começar a flutuar num êxtase de felicidades inomináveis, às quais remetem ao um misto de fim de etapas, lembranças remotas e recomeços de novas eras. 
 
E então me deixo embalar nesta aura fugidia de felicidade lúdica característica de tempo novo e de vida nova...
 
Tem dias que aprecio olhar a vida com olhos nunca vistos. Isto é espontâneo. Na virada da esquina vejo a mesma paisagem, mas meu coração se inunda de felicidade gratuita.
 
É a vida mandando singelos recados do genuíno e mavioso puro viver.
 
Quase sempre aprecio ficar estática na janela da minha vida, a observar o mundo, a admirar as pessoas e a sentir o seu e o meu cotidiano. Quase sempre pressinto os seus dramas, suas alegrias e muito dos seus sonhos. E neste "voyeur" às avessas, quase consigo tocá-las com um olhar generoso de empatia gratuita, à qual dedico a companheiros queridos na travessia da vida.
 
Mesmo porque descobri que minha felicidade é feita desta quietude dos dias vazios, dos silêncios ruidosos de divagação, dos ventos que sopram o passar das horas. A minha felicidade tem muito de melancolia, desta que atravessa os tempos, mas que me conforta a alma. E aliada a esta sensação, também amo os dias de feminilidade à flor da pele, de vestidos esvoaçantes, da força e fragilidade, do atestado explícito do ser mulher a despeito de todas as imposições.
 
Então, nas manhãs silenciosas desse outono incipiente, eu fecho os olhos e tenho a certeza de que a felicidade é esse reencontro consigo próprio, com a paz da natureza e com a vivência desse prosaico de todos os dias com os singelos de coração. 
 
E nesse correr das horas, no balanço da noite, nesta vida inserida no espaço, quando temos apenas o céu de estrelas sobreviventes a nos mirar, aprendi que a vida não nos dá sempre presentes perfeitos. Quase sempre temos que "consertá-los" ou aprender a renovar o nosso olhar a cada dia.
 
Quando, na medida do possível, conseguirmos usar a doçura como moeda de troca, receberemos de volta um mundo mais palatável para vivermos.
 
Então eu aconselho, se conselho fosse bom, inspire-se, apaixone-se pela vida. Ame-se em qualquer idade. Valorize-se, cuide-se. O seu corpo é o seu templo em evolução e a sua alma o seu combustível. Em todas as manhãs agradeça a dádiva de estar viva e a oportunidade de aprender e construir
 
E então no caos de todos os dias, este silêncio repleto de sensações novas repercute em mim.  Nesta liturgia da vida, quando todos estes ruídos cessam em minha mente, posso ouvir o barulho do vento, mas mais que isto, posso sentir o silencioso passar dos anos. Está passando. Então, devagarinho inspiro, respiro, degusto, saboreio e penso: sobreviva rápido e viva! É este o recado do silêncio. Mas na amplitude do horizonte, também ouço todas as gargalhadas da vida.
 
E a minha alma menina leva-me para longe do obscuro de todos os dias. E eu a sigo com o coração repleto desta alegria esfuziante, que só a liberdade pura nos proporciona.

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