Torrone

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

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Alimento feito com mel, açúcar, claras de ovos e amendoim, que é de fácil cultura no nosso país e que substituiu as amêndoas, tão fartas na região mediterrânea. A receita do torrone, tal qual feito por nossos ancestrais espanhóis, veio no navio de imigrantes, no fim do século XIX, por perto de 1880, com nossa bisavó que a repassou de filha em filha, chegando às mãos de minha mãe, excelente cozinheira, que a guardava como verdadeiro segredo de família.  
 
Trabalhoso para se fazer, exige ajuda de várias pessoas, pois leva tempo para preparar os ingredientes, misturá-los, fortemente, até adquirir consistência cremosa, clara e levar ao fogo brando por uma hora. O ponto é o de fio, quando se levanta a colher e o doce desprega-se devagar, formando fios, demorando um pouco para cair. Junta-se, então o amendoim triturado.
 
O preparo e o consumo dos pratos típicos conservam a identidade cultural do país de origem, além de serem instrumentos de memória da família. Reunir, ao redor de mesas fartas, com muita conversa e alegria, estreita os laços de parentesco, agregando os novos grupos que vão surgindo, unidos pelo sentimento de pertencer, tão necessário às nossas vidas. Não é só a cultura de um povo que se transmuta quando as pessoas imigram, mas a alma deste povo.
 
O único irmão, que se dispôs a continuar a tradição, foi o mais velho que gosta e tem talento para a nobre arte da culinária. Duas vezes por ano, ele organiza com os netos, que por serem jovens dispõem de muita energia, a realização do torrone em sua casa, sob sua supervisão e ao som de muitas histórias hilárias e imaginativas. Já se tornou tradição este encontro afetivo–culinário que revela como novas situações podem ser vividas com entusiasmo, mesmo com as perdas insubstituíveis de dois filhos seus. 
 
Por ocasião do aniversário e do Natal, este nosso irmão nos presenteia com grandes porções de torrone, envoltos em papel de seda, conforme os retirara das formas. A visita, acompanhada do mimo, tem contornos emocionais: reforça o costume, o gosto e os valores de nossos antepassados. Por seu sabor, o doce é um regalo para o corpo, porém, muito melhor é o seu referencial. As lembranças nos tornam sensíveis, alimentam, também, a mente e a alma Elas viajam com o navio de imigrantes espanhóis que trouxe nossos avós, para aqui continuarem suas histórias de vida.

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