Dor de cotovelo

Por: Sônia Machiavelli

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Há os que tiram sarro- Aceita que dói menos. Os que candidamente perguntam:  Mas seu plano de saúde não cobre? Os que se amparam na filosofia- Como tudo na vida, será  efêmera. Os que tentam fazer um diagnóstico- O quadro é de tendinite traumática ou de epicondilite lateral. Os que buscam entendimento nos provébios- Como a de parto e a  de gente traída, um dia será esquecida. Os que  têm o remédio na ponta da língua: Nada de arnica ou centello, beba vodka sem gelo!  Os que gostam da comparação: Pior que essa, só a de cálculo renal. Alguns poetas  fazem versos de pés quebrados, mas inteiros no sentido:  Então perguntei ao tempo / qual o melhor remédio para essa  dor/ ele muito lentamente respondeu:/ é só deixar passar quando eu tiver vontade. Estrofe de poema de  Sonia Solange, que descobri  dia desses na Internet. 
 
Na música popular brasileira o assunto permeia incontáveis canções desde meados do século passado. Vai de Jamelão -Eita dor de cotovelo dos diabos/ Que saudade, que vontade de morrer/ Que adianta eu encobrir as aparências/ Se me olhando todo o mundo já  vai ver-  a Caetano Veloso – ai dor na raiz dos cabelos/ que gela a sola dos pés/ faz os músculos ficarem moles/ e o estômago vão e sem fome/ dói da flor da pele ao pó do osso/ rói do cóccix até o pescoço; e  encontra ampla  acolhida  entre os sertanejos contemporâneos:  Ah dor de cotovelo danada/ Eu procuro esconder mas não tem jeito... 
 
Descobri que fora do nosso cancioneiro o tema inspira também compositores d’além mar, como a jovem  moçambicana Filomena Maricoa, que se tornou famosa em seu País cantando com voz exuberante: É muita dore/ está a me fatigare/ roer o osso/ oh meu senhore/ está mesmo sério/ a me  matare/ ... a dor de cotovelo. A expressão, portanto, não é criação  essencialmente brasileira, como atestam alguns, embora intraduzível para outros idiomas.  Com gênese no português, denota  tristeza, frustração, desilusão  amorosa, tudo junto e misturado que o nordestino resume bem numa única palavra: sofrência. 
 
Com esse sentido deve ter surgido a partir da observação da figura de pessoa sentada numa taverna, depois num bar, com os cotovelos em cima do balcão ou da mesa, enquanto bebia e  lamentava a má sorte no amor. De tanto ficar com os cotovelos fincados, estes começariam a doer. É poderoso o imaginário popular! Entre nós, o uso se amplificou graças às letras de sambistas e cantores românticos, com destaque para o compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues, exímio nos versos que expressavam  dores de amores.  Mas há uma segunda acepção, próxima da  primeira no espaço às vezes confuso das emoções embaralhadas:  pode traduzir  inveja. A gênese estaria associada àquela especial cotovelada que passou em tempo remoto a ser utilizada para chamar a atenção de alguém sobre algo que se pretendia censurar ou ridicularizar no afã de dissimular o despeito. E se eram muitas as cotoveladas, seria de se esperar que  doessem os cotovelos.
 
Há dúvidas sobre essas teses. O que, de passagem, não ocorre com outra expressão onde entra a mesma palavra em sentido diferente: falar pelos cotovelos. Milenar, ela  integra uma das sátiras de Horácio (65aC-8aC), escritor romano que imortalizou   em uma de suas peças o tipo inconveniente, o que toca o interlocutor usando os cotovelos, no intuito de se fazer ouvido. Diz Horácio: “Eis que chega o que fala pelos cotovelos”. 
 
De volta ao assunto que intitula esta crônica, reunindo razões semânticas e exemplos metafóricos,  quero dizer, com base na realidade, que a dor de cotovelo conotativa tem tudo a ver com a denotativa. Agora eu já sei. Resultado do tombo que levei, estou penando há 15 dias. A dor não me deixa esquecer o impacto da  queda; se faz presente no menor movimento do braço direito;  me relembra a todo instante que sob minha pele existem ossos, tendões e nervos de nomes estranhos; até me impede de rir das piadas que me contam na tentativa de me aliviar. Meu mundo ficou muito chato. Como diria minha saudosa mãe, estou amuada.
 
Caetano tem razão, essa dor  tira o apetite. Jamelão também tem: ela  é indisfarçável. E a Filomena Maricoa traduz  perfeitamente o que é essa coisa de roer o osso.  Vou ficar atenta aos versos da minha xará do mundo digital, até porque o médico me avisou:  “Isso aí vai levar umas quatro semanas para deixar de amolar”. Duas já se foram.

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