Diário de uma apêndice

Por: Bruno Cunha

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sábado. quatorze. abril. dois mil e dezoito. 
 
Eu gostaria, mas não posso me levantar. Ou melhor, ainda não consigo me levantar sozinho. E um mosquito sobrevoa o descampado que se tornou a parte central da minha cabeça calva que há sete dias não vê uma máquina de raspar cabelos. Estou só. Minha mãe trabalha. Meu pai foi ao supermercado e depois levará um par de chinelos para a Aline que está num retiro. A raquete para mosquitos está a dois metros do meu corpo, a um metro e pouco de onde meu braço todo esticado alcança. Logo eu que nunca fui a favor do porte de arma me regojizo com a ideia de resolver o problema de forma tão eficiente e eficaz. Uma única raquete acabaria com esse marginalzinho patrocinado pelo estado. Nunca mais voltariam a me infernizar. Sei não, mas acho que esse repouso forçado está me deixando mais burro. O mosquito parece saber perfeitamente da minha incapacidade temporária e disso se aproveita. Sobrevoa em voos rasos e ligeiros os espaços todos do meu corpo. Já passeou pelas orelhas, por entre os dedos do pé, na perna esquerda, subiu para os braços, antebraços, ombro, cotovelo, joelho, dedão do pé direito. Cretino que só, ele sabe que não apresento perigo. Meus movimentos limitados dos pés, receosos ainda, parecem ter se tornado um divertimento à parte para esse inseto asqueroso e aproveitador. Minhas mãos em movimentos violentos, pois essas sim funcionam perfeitamente, não o assustam mais. Tenho a impressão que ri da minha cara. Tenho a impressão que ri da minha convalescença.  A Laís chegou. Espero que o Ibama e aquele pessoal todo dos Direitos dos Insetos não nos venha encher o saco, pois fui atacado primeiro. Tive meu espaço violado. Legítima defesa. Autopreservação da minha, da nossa espécie. Superior. Superior? Faremos justiça com as próprias mãos, sim. Chega! Bom, a raquete fará. E que o levem para casa, o bandidinho de estimação, os que acharem uma barbárie, seus comuna de merda.

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