QUANDO ME APOSENTAR...

Por: Angela Gasparetto

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Quando me aposentar só quero usar algodão, camisetas largas, vestidos leves, sandálias de borracha bem macias, tênis velhos, de preferência de muitos anos...

Quando me aposentar só quero ler livros doces, estórias de infância, de casas antigas e deliciar-me todos os dias com as crônicas de Rubem Braga e de Fernando Sabino, porque ele nasceu homem e morreu menino, como costumava dizer...

Quando me aposentar, só quero usar chapéus de palhas. Só quero andar de bicicleta na chuva, tendo a noite como companhia e mirar lua sem pressa e sem mais porquês.

Quando me aposentar só quero acordar cedo, fazer aquele cafezinho preto, me perder neste ofício matutino de todos os dias, acender o fogo, olhar a chama, colocar o bule, pegar o pó...

Quando me aposentar só quero comer pães caseiros, “jacarés” derretidos, bisnagas doces, leite da vaca, da vaca mesmo, àquele sem conservantes, bem branco, que espuma e que marca o bigode da gente...

Quando me aposentar, quero deitar no escuro em noites de verão, namorar as estrelas, contá-las, descobrir todos os seus nomes e me perder imaginando quantos bilhões levou-se para chegar àquele brilho.

Quando me aposentar, quero dormir ouvindo o barulho de chuva na telha, contar os pingos do começo e do fim, ouvir as folhas das árvores batendo na janela; dormir sonhando que estou em um barco em alto-mar, que balança, que balança...

Algumas vezes, se possível, quero voltar naquele sonho de faz de conta de quando tinha 7 anos.  Nesse, eu tinha uma casa de plástico em cima do abacateiro velho, este casa me protegia do vento e da chuva e eu me imaginava coberta com um cobertor grosso, dormindo bem confortável na cama suspensa, ouvindo o barulho do vento com apenas o bem-te-vi amigo de companhia...

Quando me aposentar, quero fazer os pães de Jesus Cristo, aqueles grandes da Santa Ceia, amassar a massa com as mãos, fazendo esforço, colocando no forno e epois de tudo isto, ficar esperando só sentindo o cheirinho gostoso que dele emana...

Quando me aposentar, vou sair em uma canoa com a família e vamos pescar naquele rio que corta a casa velha da estrada e que costumávamos passar todos os domingos de volta da igreja.

Vou sentar com os pés afundando na lama e jogar minha isca. Quieta, ouvindo o barulho do rio, sentindo o peixe chegar de mansinho, beliscar minha isca no puxão característico e depois fugindo dando pulos de esperteza...

Quando, quando, quando me aposentar ou quando pude praticar um sonho de todos os dias, só quero ter a certeza que a comunhão com a terra e água são os elementos que fazem valer a pena ter nascido!

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