História de um amor

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

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Maria Rita Liporoni
 
Por amor, eles tornaram-se únicos em suas diferenças. Moça urbana, formada em nível superior, com grande círculo de amizades, adepta das novas tecnologias, privou-se de seus interesses para acompanhar o marido e ir morar em uma fazenda de reflorestamento, onde ele, agrônomo, exerceria suas funções. Não seria para sempre, lhe prometia ele. Também, não concebiam a ideia de viverem separados, tal era a força do sentimento que os aproximava. E ela foi habitar uma das casas, no agrupamento dos funcionários, um lugar aprazível com um imenso gramado ao redor, onde viam-se vários coqueiros balouçando ao vento.
 
Eram só os dois, a princípio. Dias, após uma noite de tempestade, quando ventos uivantes se fizeram ouvir e fortes rajadas se seguiram, próximo ao oco de um coqueiro, abatido por um raio, seu marido encontrou um ninho com três filhotes implumes de maritacas, atirado para fora, durante o temporal. Provavelmente, a ave mãe não o encontrara quando fora procurar o ninho. Ele, então, levou-o para a esposa, cujos olhos brilharam de emoção. Condoída, aqueceu-os e foi pingando umas gotinhas de alimento em suas bocas. Eles sobreviveram e cresceram. Meses e meses se passaram com eles ambientados em novo espaço. Quando a natureza lhes indicou que podiam voar, dois deles aventuraram-se pelos espaços infinitos e desapareceram. Aumentou, então, a cumplicidade da cuidadora com a maritaca restante. A ave sobreviveu à morte do coqueiro e trouxe vida para aquele lar. Fazia pequenos voos às arvores vizinhas, como a certificar-se de sua capacidade, mas, sempre, voltava para suas sementes e frutas. Ficavam juntas o dia inteiro e de tanto a mulher insistir, ela repetia alguns sons parecidos com a voz humana. Entendiam-se, perfeitamente, pelo tom de voz e entoação, tal era a afinidade entre elas. Com esta companhia, ela amenizava a falta de seus amigos e parentes. A tardinha, seu marido voltava do trabalho e ela sentia-se, profundamente, feliz com seus dengos e carinhos.
 
Em uma tarde de verão, quando parecia que o calor vinha das entranhas da terra, a maritaca começou a dar sinais estranhos, andando, apressadamente, para lá e para cá, no poleiro, construído para ela. Palrava e assobiava. Desinquieta, voava em círculos, batendo as asas, fortemente, parecendo querer comunicar alguma coisa. Naqueles dias a mulher sentiu-se grávida e confirmou-se que um novo ser celebraria a vida. O amor do casal realizara-se em sua completude e fizeram planos novos para suas vidas, incluindo, sempre, a avezinha companheira.

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