Canetas

Por: Bruno Cunha

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Eu quis apenas ser gentil quando meu colega de sala pediu por uma caneta emprestada. Abri o estojo e, solícito, ofereci: pega aí, cara. O estojo mal fechava, não por excesso, mas por seu tamanho reduzido, minúsculo. Dentro havia três canetas, uma azul, uma vermelha e outra preta; uma lapiseira; um marca texto e uma borracha branca que encontrei de forma sorrateira no estojo bojudo da minha irmã. Contei, claro, com o bom senso do meu colega, mas minha inocência, vezes estúpida, pregou-me uma peça. Não seria preciso dizer, mas eu digo mesmo assim: naturalmente, ele pegou minha única caneta azul. Tenho muitas manias. Quem me conhece, sabe. E uma delas é que nunca escolho um produto de maneira acidental, ao acaso. Meu processo de seleção é complexo, criterioso e demorado. Ou seja, essa caneta, antes de ganhar o direito de ser minha, foi analisada de forma tão minuciosa que deixaria as normas de qualidade da ISO 9000 no chinelo. Não estávamos nem na metade da aula, mas pra mim ela havia terminado ali. Não consegui dizer não ao colega. E a voz do professor, que antes firme e convicta, ia se dissipando nas ondas de preocupação que amargurava meus pensamentos. Que fim levaria a caneta que, honesta e espontaneamente, rascunhou grande parte de minhas crônicas? Não sabia, mas aos poucos fui descobrindo. Senti o lado esquerdo do meu corpo formigar, a começar pelos dedos da mão, quando a caneta foi parar entre os dentes amarelos do meu colega. Ele não tirava os olhos do professor; eu não tirava os olhos dele. Não demorou muito até que o colega, com a parte oposta de onde se escreve, coçou a lateral direita da cabeça, ali próximo à orelha, foi quando vi cair pequenos flocos esbranquiçados. Não bastava uma caneta repleta de secreções salivares, agora tinha uma caneta com caspa também. Logo comigo, que há muito perdi os fios que aquecem o telhado. E se você, leitor, acha que falta algo, fique sabendo que não falta mais. A mesma tampa que instantes antes aliviava a coceira branca de seu couro cabeludo, foi aos poucos ganhando uma nova textura ao ser mastigada de modo trivial não antes, é evidente, de tirar um chumaço de cera envelhecida do ouvido. A aula chegou ao fim, finalmente. Já caminhava rumo à porta, exausto, quando meu colega gritou por mim: “Ei, Cunha, aqui sua caneta! Valeu. ” E eu respondi, vestindo um sorriso forçado, mas ainda gentil: “Relaxa. Pode ficar. Tenho várias lá em casa. ” Menti. Tinha nada.

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