Renato, renascido

Por: Sônia Machiavelli

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Quando tudo funciona bem no nosso organismo, os sons do corpo são inaudíveis. Não ouvimos os fortes batimentos do coração que começou a pulsar quando ainda éramos um feto de poucas semanas; os ruídos sutis do pulmão no seu complexo mecanismo de renovar o oxigênio imprescindível à manutenção da vida; os movimentos peristálticos que garantem a digestão perfeita e com ela a reposição das energias que se consomem no quotidiano. O corpo não grita.

Muito menos nos damos conta da velocidade com o que o sangue corre por veias e artérias e de como trabalham as glândulas no seu incessante produzir de secreções em quantidades mínimas e, no entanto, essenciais à existência. Quando tudo vai bem, há uma música que não escutamos mas sentimos: a da harmonia da vida. No silêncio da plena saúde, nos esquecemos por completo - porque a ingratidão faz parte da natureza humana- de louvar e agradecer o que a cada minuto sustenta o corpo perfeito, em sua plena capacidade de trabalho, máquina extraordinária que repõe células e se refaz a cada instante. O corpo canta.

Estar vivo é um milagre do qual às vezes só nos damos conta quando ocorre alguma pane no sistema, porque o prestígio tanto da analogia quanto o da diferença tem poder sobre nosso espírito. É quando vem a dor, ou ocorre o mau funcionamento de algum órgão, que avaliamos em profundidade o que antes passava despercebido: as delícias de respirar o ar da manhã, ter apetite, sentir o gosto dos alimentos, comer uma fatia de “bolo singelo e delicioso”, escutar a canção preferida, ouvir o marulhar das ondas, “o barulho da pipoca no micro-ondas”, enxergar as flores, os pássaros, toda a criação, ver diferenças entre as estrelas, perceber no rosto a brisa vespertina, caminhar, exercitar-se, valorizar “as coisas simples, belas e gratuitas”, sentir que o cansaço ao fim de uma jornada produtiva é sobrepujado pela alegria ao romper do dia, quando, tais como crianças saudáveis, que torcem para que amanheça logo só para terem mais tempo de brincar, nos levantamos ávidos pela vida que nos espera.

Faço estas reflexões a partir da leitura de “Vida- Autobiografia de um transplantado”, de Renato Neves, lançado no último abril em noite de autógrafos na OAB Franca. Na obra o autor nos relata sua vida descrevendo-a como uma narrativa clássica, de tempo linear, em discurso pontuado por imagens poéticas e metáforas poderosas que reafirmam seu forte e confessado apego às letras e às artes plásticas. Os episódios pontuam sua existência desde o nascimento- a cidadezinha onde vivia a família, o cenário bucólico, a decisão do pai de mudar-se para garantir melhores condições de estudo para os filhos. Já em Franca, a nova escola, outros amigos, o primeiro emprego aos 14 anos, o encontro com aquela com quem se casaria aos vinte e poucos anos. Depois, a família que ia crescendo- cinco filhos; as promoções no trabalho; a bem sucedida mudança de atividade; as viagens de férias para o litoral; as estadias no rancho do Estreito; o grupo de amigos fieis com os quais se poderia contar em qualquer ocasião. Tudo isso, e mais outros afetos preciosos, os que o ligavam à mãe e ao sogro, faziam da vida de Renato Neves um comercial de margarina. Ou, como ele diz em certo momento, “conto de fadas.’

Uma preocupação porém, que de início tinha o peso de uma pena, ganhou a densidade do chumbo com a chegada do milênio. A possibilidade de que algo estava caminhando para nublar a felicidade de Renato e sua família de repente revelou-se real em 2006: ele era portador de moléstia genética que havia tirado anos antes a vida de seu irmão e levara recentemente para complicada cirurgia sua irmã- cirrose hepática. Em um dos momentos mais impactantes do relato, ele diz: “ É muito difícil receber a notícia de que você é portador de alguma doença grave. Principalmente se, junto com o diagnóstico, vier escrito em um laudo ou for declarado pelo médico que se trata de um mal incurável cujo único recurso será, num futuro próximo ou não, um transplante(...) Eu estava então com quarenta e quatro anos. Havia ainda muita vida pela frente. Aquele era, para mim, um momento turbulento. Era um pesadelo que eu estava vivendo acordado. Mas minha esposa estava comigo. Era meu apoio, meu suporte, era a força de que eu precisava para suportar aquela triste notícia, assimilar seus reflexos em nossa vida, na vida de meus filhos, em nosso futuro.”

A esposa Leninha, os filhos (só dois adultos), a família, os muitos amigos, os médicos que o atenderam na sua saga (também burocrática) de paciente brasileiro em busca de órgão, e com especial empenho a médica Margareth Lallée, foram fundamentais para que a batalha que durou oito anos e dez meses pudesse ser coroada de êxito e Renato finalmente considerado vitorioso.

Este longo e angustiante período de espera, e os posteriores, da cirurgia e da recuperação, foram resgatados pelo autor com muita sensibilidade, e registrados com coragem, pois não é fácil aos humanos desvelarem de público suas precariedades, angústias e desamparos. Com os tons da dor, mas também os da dignidade, da força e da fé, os capítulos se desdobram, mostrando quartos, corredores, UTIs, medicamentos, a solidão na volta da cirurgia, o custo emocional de permanecer fora do lar até o total restabelecimento. Outros chegam em escrita de clave emotiva que registra a alegria sentida pela nova oportunidade de viver e a consciência de mudança operada no ser que passou pela batalha travada a favor da Vida: “Depois do transplante, a vida muda. E muda muito. Não é somente uma transformação física. É também e principalmente espiritual. Você passa a ter uma nova visão da vida. Alteram-se valores e conceitos. Passamos a dar atenção a pequenos detalhes. Coisas que às vezes antes não tinham tanta importância para nós ocupam agora uma posição de destaque em nossa escala de valores.”

Os dois últimos capítulos são de gratidão a quem lhe doou o fígado quando seu tempo de vida já se esgotava; e de apelo para que todos se conscientizem de que “a doação de órgãos é um gesto espontâneo de amor à vida.” E explicitando a razão principal de ter escrito o livro, afirma: “Este é o único propósito (mobilizar doadores) desta pequena autobiografia. Se através dela houver apenas uma doação, eu me sentirei realizado”.

Num pensamento antológico, retomado por admiradores de várias gerações, diz Byron que “a lembrança da alegria já não é alegria; mas a lembrança da dor ainda é dor”. Renato Neves desmente a assertiva do poeta-filósofo numa das páginas finais de seu livro: “Em segundos vivo o filme real a que assisti nos últimos anos. Angústia, dúvidas e sentimentos contraditórios que me acompanharam por oito anos e dez meses, repentinamente desapareceram da grande tela de projeção à minha frente. Ficaram somente as cenas alegres e a perspectiva futura de grandes realizações, com o final feliz como nos romances e folhetins projetados nas telas dos cinemas e das tevês.”

Esta é uma das muitas mensagens esperançosas deste livro corajoso. E a esperança, segundo um ditado africano, “é o pilar da vida.” Fiemo-nos sempre nela, como Renato, revitalizado e renascido, reafirmando a etimologia de seu nome.

  

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