Página em branco

Por: Ligia Freitas

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Numa fotografia antiga vi minha boca suja de comilança, minha mãe com um olhar cansado e a casa de cabeça para baixo. Enxerguei a vida real, tal como ela é.

Rolei o dedo pela tela do celular e percebi o quanto as fotografias de hoje são diferentes. Eu diria impecáveis, todos sorrindo, ninguém cabisbaixo.

Meu Deus, que mulher perfeita! Parece mais com a mulher maravilha do que com a mulher da esquina.

E essa família linda? Sempre unida, querida e aguerrida, jamais partida, falida, polida.

Um carro do ano, uma viagem paradisíaca, a roupa da passarela, o sapato da revista.

Embaixo do tapete: dívidas, plásticas, remédios para depressão, solidão, brigas em família.

Eis um abismo social, ou melhor, surreal. É perfumaria que cega os olhos e não deixa a simplicidade aparecer.

Mas será que notamos essa distância entre o verdadeiro e o artificial?

E será que esse mundo visualmente incrível aumenta o sentimento de frustração?

E os nossos adolescentes? Estão preparados para encarar a vida real e não a virtual? Será que sabem que a menina que sorriu para a foto é a mesma que há pouco inundou rios de derrota?

Sejamos sinceros com nós mesmos e de carne e osso.

Que a felicidade venha das mãos abertas pelos ombros e não das sacolas que carregamos.

Afinal, quando pensamos nos momentos felizes que já tivemos na vida, lembramo-nos mais das pessoas ou das coisas?

A vida é uma página em branco e cabe a nós colorirmo-la como quisermos. Há dias de sol quente e outros de céu nublado, essa é a beleza da vida, saber ver sentido em todos os passos.

Vá, pegue a sua página em branco, quero te ver feliz.

Você é o dono do seu destino, você decide o que colocar ali.

Só não se esqueça de que para que um jardim floresça também há de haver dias de céu ruim.
 

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