Lúcia ou Luzia? Lúcia/Luzia!

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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Em 1502, Cristovão Colombo ao descobrir pequena ilha no Caribe, próxima à Martinica, São Vicente, Barbados e Granadinas, deu-lhe o nome de Santa Lúcia, em homenagem a querida, venerada e popular santa siciliana, de história triste e edificante que viveu e morreu provavelmente por volta do século IV, em Siracusa. Santa Lúcia, ou Santa Luzia, eu nunca havia feito essa associação, são a mesma pessoa, embora soubesse que Santa Lúcia é santa padroeira da Suécia onde, todo dia 13 de dezembro recebe festa com música, fogos e doces, celebrada nas igrejas, escolas, associações, casas de idosos, com cantos tradicionais, distribuição de café, vinho quente – glögg; bolinhos de açafrão, lussekatt; bolachas de gengibre – pepparkaka. Dizem que a tradição desta comemoração tradicional realizada no pequeno país, mesmo sob frio intenso, teria vindo da Alemanha e passou a fazer parte do calendário nórdico no século XVIII. A Festa di Santa Lucia, em Siracusa, cidade natal e que também celebra o martírio da Virgem Santa, é realizada no mesmo 13 de dezembro e se prolonga por uma semana. Tem três níveis. O mais concorrido, o religioso, com a procissão que parte da Praça da Duomo, tem início às 15h30, desloca a pesadíssima estátua da santa em tamanho natural, feita em prata e é carregada pelos fiéis do sexo masculino, até a Igreja de Santa Lúcia al Sepulcro, onde chega por volta das 22h30. Depois tem a parte profana, cujo ápice são os fogos de artifício e a terceira, a tradição culinária. São festas que atraem turistas e fiéis do mundo inteiro. Recentemente apenas soube que Santa Luzia e Santa Lúcia eram a mesma pessoa. Embora lógica, a associação fugia de meu entendimento: o c tem som de ch, no idioma italiano, assim, o nome Lucia é pronunciado como Luchia, que para virar Luzia foi bastante simples... e até simpático. Mas sobre ambas, a mesma história triste, confirmada em 1894, quando se descobriu a inscrição escrita em grego antigo sobre seu sepulcro, em Siracusa, que trazia o nome da mártir, selando a tradição oral cristã sobre sua morte no início do século IV. Era jovem, rica, bonita, foi prometida mas se recusou a casar para permanecer virgem e dedicar-se a Cristo. A devoção à santa, cujo nome está ligado à visão – Luzia deriva de luz - fez acontecer milagres e a transformaram numa das santas auxiliadoras da população, que a invoca nas orações para obter cura nas doenças dos olhos e da cegueira. Diz a antiga tradição oral que Santa Luzia, ou Santa Lúcia, teria arrancado os próprios olhos entregando-os ao carrasco, preferindo este martírio a renegar sua fé em Cristo. Imediatamente nasceram-lhe novos e mais bonitos olhos, entretanto. A pintura e a literatura enalteceram tal extremo gesto de fidelidade cristã. Conta, ainda, a tradição, que nem dez homens juntos conseguiram levantar Lúcia, ou Luzia, do chão. Jogaram sobre seu corpo resina e azeite ferventes, mas ela continuava viva. Somente morreu, quando a decapitaram. Isso em 304. As relíquias de Santa Lúcia, ou Santa Luzia, perambularam séculos pelo mundo, para serem protegidas dos bárbaros e somente voltaram ao Ocidente pelas mãos de soldados das Cruzadas, em 1204. Nas festas de Siracusa, todos os anos, uma Lúcia sueca é convidada pelo governo siciliano para participar das festas em homenagem à santa em comum dos dois países. Essa imagem da ilustração está em uma igreja de Alberobello, Puglia. É lindíssima. 

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